
Por Juscelino Taketomi
A noite caiu pesada sobre a planície dos Ay-Mhorés, e o silêncio que se seguiu não era o silêncio comum das matas. Era um vazio cósmico, o prenúncio de um choque de essências. Os guerreiros assistiam de longe, pois sabiam que a batalha não seria travada com lanças ou flechas, mas com a própria substância da alma.
Tabajara avançava sozinho, firme como uma montanha erguida da terra e ardente como tocha acesa pelos deuses antigos. Seus olhos refletiam coragem e a herança dos ancestrais atlantes que, em eras perdidas, haviam firmado pactos com forças que habitam para além das estrelas.
Diante dele, no alto de um rochedo faiscante de raios ocultos, erguia-se Cinamor, o mago negro. Seu manto era feito de trevas condensadas, e de seus olhos ardia a cólera de mil eclipses. Entre suas mãos repousava o espelho de basalto negro, polido como um abismo sem fundo, que bebia a luz dos céus e devolvia apenas imagens distorcidas, feitas para aprisionar e subjugar.
A voz de Cinamor trovejou como ferro contra ferro: — Tabajara, filho da luz, vieste oferecer tua alma ao meu espelho? Nele repousam todos os heróis que ousaram desafiar-me. Nele até o sol já se curva em sombras.
Mas Tabajara respondeu sereno, como se falasse ao próprio Universo que assistia: — Não vim entregar minha alma, Cinamor. Vim libertar as que aprisionaste. E dizer-te que o sol não se curva. É preciso esclarecer-te que o sol repousa até renascer.
O mago riu, e sua gargalhada fez estremecer o chão. Com um gesto, o espelho brilhou em escuridão líquida, refletindo não o corpo de Tabajara, mas seus medos ocultos: a derrota, os irmãos acorrentados, a terra devastada. O guerreiro fitou a ilusão e ergueu a mão.
— Espelho que devora, não conheces a chama que não pode ser refletida! E a seu redor, o ar vibrou. Dos confins da floresta ergueram-se ventos antigos, vozes das árvores milenares, guardiões da aurora. Uma esfera de luz envolveu seu corpo.
Enfurecido, Cinamor bradou: — Que venham os elementais!
E a terra se abriu. Serpentes de fogo dançaram em arcos de brasas, colossos de pedra caminharam como montanhas vivas, rios se ergueram em colunas líquidas, ventos se tornaram lâminas cortantes. O campo inteiro converteu-se em vórtice de caos.
Mas Tabajara ergueu os braços e invocou os aliados invisíveis: — Espíritos da aurora! Iaguaretês das estrelas! Rios eternos, acorram!
Então, relâmpagos desceram do céu como serpentes de prata. Raízes flamejantes emergiram e prenderam os gigantes. Iaguaretês de luz saltaram contra as serpentes de fogo. As águas obedeceram ao chamado do guerreiro, limpando a corrupção.
O choque foi devastador. Cinamor ergueu o espelho, e dele saíram gritos de almas presas. Criaturas de sombra e ferro emergiram. Tabajara lançou sua voz como trovão: — Retornem ao pó de onde jamais deviam ter sido arrancadas!

Um clarão dourado atravessou os espectros, dissolvendo-os como fumaça diante da aurora.
Cinamor cambaleou, mas não cedeu. Aproximou-se de Tabajara e murmurou, com o ódio dos milênios: — Nem os deuses podem apagar o que se reflete no basalto. És forte, Tabajara, mas todo sol um dia se apaga.
O guerreiro ergueu os olhos ao céu e respondeu com voz que parecia nascer da própria terra: — Todo sol se põe, Cinamor. Mas apenas para nascer outra vez.
Como resposta, uma estrela oculta brilhou no firmamento, uma estrela antiga, conhecida apenas pelos iniciados atlantes. Seu raio dourado desceu e atingiu o espelho. O basalto vibrou, gritou como fera ferida e se partiu em mil fragmentos. Os estilhaços se ergueram no ar antes de explodirem em chamas negras devoradas pelas raízes e águas invocadas pelo guerreiro.
Cinamor tombou de joelhos, tentando ainda convocar seus elementais. Mas eles já não lhe obedeciam. O fogo apagava-se em cinzas, a pedra ruía em pó, a água fugia para os rios, o vento o traía, arrancando-lhe o manto e o orgulho. Em sua última palavra, havia desespero: — A sombra sempre retorna…
E foi tragado por sua própria escuridão, que se enrolou em espirais até sumir no nada.
A planície respirou de novo. Os guerreiros, antes tomados pelo temor, caíram em cânticos de vitória. Tabajara, exausto mas ereto, ergueu os olhos à estrela que ainda brilhava no céu e murmurou: — Enquanto houver quem se levante pela vida, nenhuma sombra será eterna.
Naquela noite de confronto cósmico, o equilíbrio foi preservado. A terra dos Ay-Mhorés pôde respirar em paz ainda que, nos véus do tempo, a eterna guerra entre luz e trevas seguisse sua dança infinita.










