O dia em que a música chorou e virou flores e história

Francisco Tenório Cerqueira Júnior – Foto: Reprodução

Por Juscelino Taketomi

Há dias em que o calendário parece conspirar para se tornar eterno. O 13 de setembro de 2025 foi desses dias raros, em que a música brasileira se viu obrigada a olhar para trás, chorar, agradecer, resistir e se maravilhar.

Na Argentina, depois de meio século de silêncio e mistério, veio a confirmação: o corpo encontrado em 1976 num terreno baldio era de Francisco Tenório Cerqueira Júnior. Tenório Jr., o pianista mágico. Não havia palco em que ele não fosse reverenciado.

Os dedos de Tenório eram como rios correndo sobre as teclas, transformando notas em encantamento. Em 1976, quando acompanhava Vinícius e Toquinho, saiu para comprar cigarros em Buenos Aires e nunca mais voltou. Levado pelas sombras da Operação Condor, entrou para a lista de desaparecidos políticos.

Mas a música, essa sim, nunca perdeu o extraordinário pianista. O reencontro de seu corpo é também o reencontro da memória — a lembrança de que um artista foi arrancado de nós porque acreditava na liberdade.

Hermeto Pascoal – Foto: Divulgação

No mesmo dia, o Brasil se despediu de Hermeto Pascoal. Se Tenório fazia do piano um rio cristalino, Hermeto era o próprio oceano em fúria. Fez chaleira soar como saxofone, porco resfolegar como trombone, vento virar sinfonia. Um alquimista de sons que nunca aceitou fronteiras: do forró ao jazz, do choro à bossa nova, tudo cabia em sua linguagem.

Foi Hermeto quem, com o Quarteto Novo, ajudou a vestir de grandeza Disparada, a belíssima canção de Geraldo Vandré e Theo de Barros que marcou a história dos festivais da Música Popular Brasileira (MPB). Hermeto nunca foi bruxo. Foi liberdade em estado puro, uma usina de invenções que transformou a vida em música.

E Vandré, no mesmo 13 de setembro, completou 90 anos. Um enigma vivo. Autor de Porta Estandarte, que o consagrou em 1966, e de Pra não dizer que não falei de flores, a Marselhesa brasileira, que incendiou o país em 1968 e virou hino da resistência contra a ditadura militar da época.

Geraldo Vandré – Foto: Divulgação

Vandré atravessou o tempo como quem caminha por uma estrada de espinhos. Perseguido, exilado, depois recolhido ao silêncio. Ainda assim, aos 90, permanece como uma chama — discreta, mas intacta — da dignidade que a música pode carregar.

O dia 13 de setembro, portanto, não foi apenas um dia. Foi uma partitura escrita a três vozes. Tenório, o pianista que a ditadura tentou calar. Hermeto, o inventor que transformou o mundo numa orquestra. Vandré, o trovador rebelde que fez do canto uma arma.

Apesar da escuridão dos anos de chumbo, eles iluminaram a alma brasileira. Tenório com seu piano mágico, Hermeto com suas invenções sem fronteiras, Vandré com sua coragem lírica. E, no encontro de suas histórias, o Brasil percebeu: a música é a memória que nem a violência consegue enterrar.

DEIXE SEU COMENTÁRIO

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.