
O Brasil se despede hoje de um dos seus maiores cronistas visuais. O escritor e roteirista Manoel Carlos, conhecido carinhosamente como Maneco, faleceu neste sábado, 10 de janeiro, aos 92 anos no Rio de Janeiro. A notícia foi confirmada pela produtora de sua filha, Júlia Almeida, e marca o fim de uma era na teledramaturgia nacional. Internado no Hospital Copa Star, em Copacabana, o autor vinha enfrentando complicações decorrentes da doença de Parkinson, que já afetava seu estado de saúde nos últimos anos.
As Helenas e a sensibilidade do Leblon nas telas
Maneco foi o arquiteto de um universo muito particular. Ele transformou o bairro do Leblon em um cenário quase vivo, onde as questões da alma humana eram discutidas entre um café e uma caminhada na praia. Suas protagonistas, sempre batizadas como “Helena”, tornaram-se símbolos da força feminina. Elas não eram figuras perfeitas, mas mulheres reais que enfrentavam dilemas morais intensos em nome do amor e da família.
Abaixo destacamos os pilares que tornaram sua obra única:
- Personagens femininas com dilemas éticos profundos e humanizados.
- Diálogos naturalistas que pareciam conversas reais entre amigos ou familiares.
- Vilãs que agiam por sentimentos comuns como inveja ou ressentimento, fugindo do maniqueísmo clássico.
- Abordagem constante de temas sociais importantes, a exemplo de doenças raras e violência doméstica.
Produções inesquecíveis que moldaram a ficção nacional

A trajetória de Manoel Carlos na televisão começou ainda na década de 1950, consolidando-se como um nome central a partir dos anos 1970. Ele assinou sucessos estrondosos que pararam o país e ainda hoje são lembrados em constantes reprises. Sua obra se tornou uma referência por unir entretenimento e reflexão em textos bem-estruturados.
As novelas de maior impacto na carreira do autor incluem:
- Baila comigo, em 1981, que apresentou a primeira Helena da história.
- Felicidade, exibida em 1991, marcando um retorno memorável.
- História de amor, de 1995, um clássico das tardes da TV Globo.
- Por amor, em 1997, considerada por muitos críticos a sua obra-prima absoluta.
- Laços de família, produzida em 2000, que emocionou o público com a luta contra a leucemia.
- Mulheres apaixonadas, de 2003, que discutiu violência urbana e maus-tratos.
- Páginas da vida, em 2006, abordando com sensibilidade a síndrome de Down.
- Viver a vida, de 2009, trazendo a primeira Helena negra vivida por Taís Araújo.
- Em família, de 2014, sua última novela, que fechou o ciclo com Julia Lemmertz.
Além das novelas, ele criou minisséries de grande prestígio como A sucessora, Presença de Anita e Maysa, quando fala o coração. Cada uma dessas produções demonstrou a versatilidade do autor em transitar entre tramas de época, dramas psicológicos e biografias sensíveis.
Força pessoal diante das perdas e o futuro do legado
Fora dos estúdios, a vida de Maneco foi marcada por uma resiliência admirável. Ele enfrentou a dor extrema de perder três filhos, Ricardo de Almeida, Manoel Carlos Júnior e Pedro Almeida. Mesmo diante dessas tragédias, nunca deixou de escrever com doçura e esperança. O autor deixa a esposa, Elisabty, e as filhas Júlia Almeida, que administra o acervo do pai, e Maria Carolina, roteirista que colaborou em diversos projetos da carreira dele.
O Ministério da Cultura emitiu uma nota oficial lamentando a perda e se solidarizando com a comunidade artística. “O Ministério se solidariza com os familiares, amigos, colegas de profissão e toda a comunidade artística e cultural”, afirmou a pasta em trecho do comunicado. A partida de Maneco encerra um ciclo de sofisticação na televisão, mas sua obra permanece como um manual sobre as complexidades do coração humano.











