Nelson Azevedo O Acordo e o novo mapa das exigências: o que muda na...

O Acordo e o novo mapa das exigências: o que muda na prática para a ZFM

Por Nelson Azevedo (*)

O acordo entre a União Europeia e o Mercosul não inaugura apenas um novo corredor de oportunidades comerciais. Ele estabelece, sobretudo, um novo mapa de exigências composto por filtros técnicos, ambientais, reputacionais e regulatórios que passam a funcionar como uma “alfândega invisível” do século XXI. A Zona Franca de Manaus (ZFM), que historicamente se construiu como solução nacional para um problema regional, precisa agora se preparar como solução regional para um problema global.

O ponto de partida é objetivo. O acordo foi assinado em 17 de janeiro de 2026, em Assunção, encerrando um ciclo de negociações de mais de duas décadas, embora ainda dependa dos trâmites internos de ratificação na Europa. É uma realidade aberta: a assinatura muda o jogo e a pergunta prática não é “se” o mundo vai exigir mais, mas “quando” e “como” essas exigências incidirão sobre produtos e cadeias conectadas à Amazônia. No novo comércio, a exigência viaja junto e se torna padrão de contrato, auditoria, financiamento e compra.

Desafios e as novas barreiras não tarifárias

A narrativa tradicional de um acordo comercial foca na redução de tarifas e ampliação da competitividade. Isso é verdadeiro e está registrado nos documentos europeus, que preveem ampla liberalização tarifária ao longo do tempo. No entanto, o mercado de 2026 opera com uma segunda camada decisiva: as barreiras não tarifárias.

Na prática, a tarifa cai, mas o contrato fica mais exigente. Para a ZFM, isso altera a rotina produtiva de três maneiras fundamentais.

  • O acesso ao mercado europeu exige prova documental robusta sobre conformidade técnica, origem, processos e pegada de carbono
  • A compra europeia passa a ser orientada por “compliance”, onde quem não comprova, perde o mercado
  • O custo da não conformidade cresce, aumentando o risco de rejeição de lotes e encarecimento de seguros e crédito

Sustentabilidade operacional como governança de cadeia

O acordo é acompanhado por uma arquitetura institucional que reforça compromissos de sustentabilidade por meio de instrumentos específicos de “trade and sustainable development”. A conversa sobre a Amazônia sai do marketing e entra na governança. O caso mais emblemático é a Regulação Europeia sobre Produtos Livres de Desmatamento (EUDR), com aplicação prevista a partir de 30 de dezembro de 2025.

Mesmo quando a indústria local exporta manufaturados, ela pode carregar insumos ou embalagens que entram em cadeias monitoradas por critérios ambientais. O “efeito dominó” é inevitável: grandes compradores europeus repassam obrigações de rastreabilidade e geolocalização para toda a cadeia de fornecedores.

Carbono como variável de preço e acesso

A Europa está implementando o Mecanismo de Ajuste de Carbono na Fronteira (CBAM). Após um período transitório focado em reportes, o ano de 2026 marca o início da fase de operação plena.

Para a ZFM, isso cria uma urgência técnica para consolidar metodologias de cálculo e padronizar inventários. Quem mede carbono, negocia; quem não mede, justifica; quem não justifica, perde o espaço. É necessário produzir um “idioma comum” de dados climáticos aceito por bancos e seguradoras internacionais.

Reorganização da concorrência e o papel da academia

O acordo também reordena investimentos. A Comissão Europeia sustenta que o pacto melhora a segurança e a previsibilidade das cadeias, o que pode ser virtuoso para o Amazonas caso haja preparação institucional. O investimento fluirá para onde existirem “pistas asfaltadas” de conformidade e inovação.

Nesse contexto, a academia deve atuar como infraestrutura produtiva. O novo mapa de exigências é um mapa de dados: métricas verificáveis, protocolos de auditoria e construção de indicadores. Sem ciência aplicada, a região fica presa a uma defesa retórica que não atravessa contratos internacionais.

O que muda na rotina da ZFM e o chamado prático

Para resumir as mudanças práticas na linguagem de chão de fábrica e sala de reunião, listamos sete providências essenciais.

  1. A documentação vira produto: será preciso “provar bem” além de fabricar bem
  2. Rastreabilidade sobe na cadeia: fornecedores serão cobrados diretamente pelos compradores
  3. Sustentabilidade vira critério de compra e não apenas de comunicação
  4. Medição de carbono entra no radar como variável de custo e reputação
  5. A conformidade técnica europeia torna-se a referência dura para outros mercados
  6. O tempo de reação diminui, pois a exigência chega antes da lei via contratos
  7. Quem se organizar primeiro define o padrão e se posiciona como fornecedor confiável

A assinatura do acordo em janeiro de 2026 é o início da cobrança. A agenda mínima para a região deve incluir a criação de um “Observatório UE–Mercosul da Competitividade da ZFM”, uma agenda de “compliance produtivo” setorial e um programa de formação liderado pela academia. O acordo abriu a porta; agora é necessário método, unidade e evidências.

 (*) Nelson é economista, empresário, presidente do SIMMMEM – Sindicato da Indústria Metalúrgica, Metalomecânica e de Materiais Elétricos de Manaus, conselheiro do CIEAM e da CNI e vice-presidente da FIEAM.

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