
A disparidade de preços no mercado automotivo do Mercosul atingiu um nível que desafia a lógica do consumidor brasileiro. O Chevrolet Onix, um dos veículos mais vendidos e produzidos em solo nacional, apresenta uma diferença de valor que ultrapassa R$ 39 mil quando comparado ao mercado paraguaio.
Mesmo saindo da mesma linha de montagem, o hatch compacto escancara como a carga tributária e as estratégias comerciais transformam um bem de consumo em um artigo de luxo dependendo de qual lado da fronteira ele é vendido.
Preço nacional
No mercado brasileiro, o catálogo oficial da Chevrolet aponta que o Onix 2026 na sua versão de entrada (MT) tem preço inicial de R$ 101.790. Este valor engloba o pacote básico de segurança com airbags e controle de estabilidade, além dos sistemas de conectividade padrão da montadora.
Quando o consumidor opta por motorização turbo ou câmbio automático, o investimento salta rapidamente para patamares que superam os R$ 110 mil, refletindo a realidade inflacionada do setor automotivo doméstico.
Oferta vizinha
A situação ganha contornos dramáticos ao cruzar a fronteira para Ciudad del Este. Em plataformas de venda como o WebAuto, é possível encontrar anúncios do Chevrolet Onix zero quilômetro na versão LTZ por cerca de US$ 17.990. Na conversão direta para a moeda brasileira, esse montante equivale a aproximadamente R$ 61.990.
A diferença é impressionante, pois trata-se do mesmo veículo, com os mesmos equipamentos, mas com um preço final que representa quase dois terços do valor cobrado nas concessionárias brasileiras.
Peso tributário
A explicação para esse abismo financeiro reside quase que exclusivamente na estrutura de impostos do Brasil. Enquanto o veículo exportado para o Paraguai muitas vezes goza de regimes tributários diferenciados, o modelo vendido internamente suporta uma das cargas mais pesadas do planeta.
Entre os tributos que inflam o preço final estão o IPI (Imposto sobre produtos industrializados), o ICMS (Imposto sobre circulação de mercadorias e serviços), além do PIS (Programa de integração social) e da COFINS (Contribuição para o financiamento da seguridade social).
Somados aos encargos estaduais e custos operacionais, esses impostos tornam o produto nacional proibitivo para grande parte da população.
Importação direta
Diante dessa discrepância, muitos brasileiros cogitam a importação direta ou o uso do sistema informal conhecido como “Suitcase”, onde terceiros facilitam a compra.
Entretanto, a regularização oficial no Brasil não é simples. O processo envolve regras rígidas de importação, tributos de entrada e uma burocracia documental que pode anular parte da vantagem financeira inicial.
Ainda assim, o cenário faz com que o consumidor busque alternativas de financiamento ou leasing no exterior para tentar escapar dos preços abusivos praticados nas tabelas oficiais brasileiras.
Realidade amarga
É importante ressaltar que os valores anunciados no Paraguai podem variar conforme negociações comerciais e o modelo exato. No Brasil, o preço de tabela também sofre variações regionais e depende de promoções pontuais das montadoras.
Contudo, o fato de um carro ser fabricado em solo brasileiro e ser vendido por R$ 61.990 em outro país, enquanto o próprio brasileiro precisa desembolsar R$ 101.790 pelo mesmo bem, ilustra uma falha sistêmica na regulação fiscal e na política de mercado que penaliza diretamente quem produz e consome dentro de suas próprias fronteiras.










