Ninguém cresce sozinho: como vínculos de afeto salvam jovens que saem de abrigos

Turma de adolescentes na preparação para o apadrinhamento Afetivo - Foto: Divulgação

Sair de um serviço de acolhimento ou abrigo e iniciar a vida adulta é um dos maiores desafios enfrentados por adolescentes em situação de vulnerabilidade. A ausência de vínculos afetivos, comunitários e sociais pode transformar esse momento em um processo solitário e arriscado, muitas vezes marcado pela insegurança emocional, evasão escolar e dificuldade de inserção no mercado de trabalho. Para mudar essa realidade, o Grupo Aconchego, em parceria com o Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC), a Secretaria Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (SNDCA) e com apoio do Conanda, promove o Projeto Jovem em Movimento.

A iniciativa foca no fortalecimento de redes de apoio que buscam garantir proteção e autonomia, além de preparar adolescentes acolhidos e egressos para a vida adulta. O projeto se dissemina por meio de oficinas, rodas de conversa, acompanhamento técnico e escuta qualificada — sempre priorizando o protagonismo dos jovens. No Jovem em Movimento, também está prevista a capacitação de equipes técnicas dos serviços de acolhimento do Distrito Federal, com o objetivo de qualificar práticas e integrar serviços públicos, visando ampliar essa rede de proteção.

“Os vínculos afetivos são a base: relações de confiança e cuidado dão ao jovem a certeza de que ele não está sozinho. Mas também são fundamentais os vínculos comunitários, educacionais e profissionais. É a soma deles que cria pertencimento e segurança”, explica Maria da Penha Oliveira, psicóloga e coordenadora do projeto.

Quando o vínculo faz a diferença

A psicóloga Maria da Penha relembra a trajetória de uma jovem atendida pelo Aconchego que, ao deixar o acolhimento, manteve laços com a irmã, uma madrinha afetiva e a equipe técnica. Esse apoio foi decisivo para que ela concluísse os estudos, ingressasse na faculdade e conquistasse o primeiro emprego. “A segurança emocional oferecida por essa rede fez com que ela acreditasse em si mesma e não desistisse diante das dificuldades”, observou.

A diferença entre ter vínculos e não tê-los é significativa: enquanto jovens apoiados conseguem planejar, pedir ajuda e construir projetos de vida, aqueles que não contam com essa rede enfrentam maiores riscos de evasão escolar, desemprego, endividamento, isolamento e até situações de judicialização.

Um dos diferenciais do Jovem em Movimento é a proposta de implementar um fluxo intersetorial, envolvendo áreas como saúde, educação, moradia, assistência social e trabalho. A ideia é apresentar esse modelo como política pública ao CDCA/DF, tornando-o replicável em todo o Brasil.

Além do suporte direto e da formação de profissionais, o projeto também incorpora a tecnologia como aliada, com um aplicativo educacional que vai ajudar os adolescentes em tarefas práticas e burocráticas da vida adulta, como emitir um boleto, tirar um documento ou atualizar informações junto ao Governo, funcionando como um lembrete de que eles não estão sozinhos nessa transição.

“Queremos que essa etapa da vida seja reconhecida como responsabilidade do Estado. Não é possível que o acolhimento se encerre sem garantir os meios mínimos para que esse jovem construa sua autonomia com dignidade. Essa é a nossa preocupação e nosso objetivo é não abandonar esse jovem ao completar 18 anos”, reforça Penha.

A trajetória do Aconchego

Com mais de 30 anos de atuação na defesa do direito à convivência familiar e comunitária, o Aconchego já desenvolveu iniciativas como o Apadrinhamento Afetivo, o Programa Irmão Mais Velho, o Programa Centelha e o Projeto PIPA. O Jovem em Movimento nasce dessa experiência acumulada e busca consolidar um fluxo contínuo de atendimento e acompanhamento aos adolescentes em processo de desligamento, de modo a se tornar um modelo consistente de política pública.

Sobre o Grupo Aconchego – O Aconchego é uma entidade civil, sem fins lucrativos, fundada em dezembro de 1997, que trabalha em prol da convivência familiar e comunitária de crianças e adolescentes em acolhimento familiar e institucional.

Filiado à Associação Nacional dos Grupos de Apoio à Adoção – ANGAAD, e membro do Movimento Nacional Pró Convivência Familiar e Comunitária – MNPCFC, o Aconchego é reconhecido como referência em Brasília e conta com grande projeção nacional na criação de tecnologias sociais com vistas à garantia do direito das crianças e adolescentes à convivência familiar e comunitária, por meio de ações de intervenção com potencial para a transformação social e cultural.

Alana Felix | Proativa Comunicação

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