
Por Reinaldo Polito (*)
Lula tem feito comentários que podem atrapalhar suas intenções de continuar no Palácio do Planalto nas eleições de 2026. O pronunciamento sobre a megaoperação contra o Comando Vermelho nas favelas do Rio de Janeiro parece ter sido um dos maiores deslizes de sua comunicação. Veja em que contexto ocorreu.
O dia 28 de outubro de 2025 já ficou para a história. A operação contra a facção criminosa será lembrada como uma das mais letais de que se tem notícia, e, como acontece com os eventos dessa dimensão, caberá aos historiadores escolherem a narrativa que preferirem.
O pronunciamento de Lula
Se forem de viés progressista, provavelmente dirão que se tratou de uma chacina que poderia ter sido evitada. O próprio presidente Lula, no calor dos acontecimentos, afirmou que foi uma “matança”. Argumentou que a ordem recebida pelos policiais era para prender, não para matar:
“Vamos ver se a gente consegue fazer uma investigação, porque a decisão do juiz era uma ordem de prisão, não tinha ordem de matança. […] O dado concreto é que a operação, do ponto de vista da quantidade de mortes, as pessoas podem considerar um sucesso, mas, do ponto de vista da ação do Estado, eu acho que ela foi desastrosa.”
A oposição contestou com dados
Essa opinião do presidente foi compartilhada pelos governistas. Muitos se pronunciaram com críticas à polícia. Não foram poucos os que chamaram os bandidos mortos de “meninos”. Não consideraram que esses “garotos” estavam portando fuzis e usando drones para lançar bombas contra os policiais durante o confronto.
Na linha inversa, a manifestação da oposição foi firme. Elogiou a ação das forças de segurança e argumentou que os criminosos deviam ser tratados como criminosos. Essa opinião se sustentou em pesquisa realizada junto aos moradores. Um levantamento da Atlasintel mostrou resultado avassalador: 87,6% dos moradores de favelas do Rio de Janeiro são favoráveis à operação policial.
Será difícil contestar a pesquisa
Isso significa que, de cada dez pessoas que vivem nessas localidades tomadas pelo crime organizado, nove aplaudiram a megaoperação. É preciso muito malabarismo verbal para explicar por que esses moradores estariam equivocados.
Eles não têm a quem recorrer, já que o Estado não consegue impor a lei nessas comunidades. Está tudo dominado.
Tudo bem planejado
A ação foi cuidadosamente planejada. Sabendo que os bandidos que não se entregariam tentariam fugir pela mata, os policiais deixaram homens postados estrategicamente nessa região, o que evitou a morte de inocentes. Um contingente de 2,5 mil agentes das forças de segurança participou da operação, com 180 mandados de busca e apreensão e 100 de prisão. No total, 121 pessoas morreram, 117 criminosos e 4 policiais, e foram apreendidos 93 fuzis, 26 pistolas e um revólver.
Lula é um político experiente e deve ter feito cálculo eleitoral bem elaborado para se manifestar assim. Para quem vê de fora, sem participar das discussões com a cúpula governista, a impressão é de que houve um tremendo equívoco por parte do presidente.
Desculpas frequentes
Nos últimos tempos, parece que essa habilidade política anda meio fora de órbita. São incontáveis os exemplos em que precisaram dizer que as palavras do chefe do Executivo foram tiradas de contexto ou que se tratava de uma falha momentânea. Uma vez, tudo bem. Duas, vá lá. O encadeamento de uma série delas, entretanto, se torna imperdoável.
Na última semana mesmo ele teve de se desculpar por mais uma dessas gafes. Depois de afirmar que a culpa é dos usuários de drogas, e não dos traficantes, teve de dar meia-volta e desdizer o que havia dito com convicção.
Muita informação negativa
Contrariar a vontade da quase totalidade da população para defender uma posição ideológica, apenas para satisfazer sua base partidária, poderá prejudicá-lo na corrida eleitoral.
Somando esse fato aos desgastes provocados pelas investigações sobre o rombo do INSS, à taxação de 50% sobre os produtos exportados para os Estados Unidos, às sanções impostas por Trump a diversas autoridades brasileiras e às perspectivas negativas da economia para o próximo ano é quase uma tempestade perfeita. Haja Sidônio Palmeira para segurar a bucha. Siga pelo Instagram: @polito
(*) é Mestre em Ciências da Comunicação, professor de pós-graduação em Marketing Político e em Gestão Corporativa na ECA-USP e autor de 34 livros, que já venderam mais de 1,5 milhão de exemplares em 39 países.










