
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva criticou neste domingo, 6 de julho, o papel do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do Banco Mundial. Segundo ele, essas instituições “sustentam um Plano Marshall às avessas, em que economias emergentes e em desenvolvimento financiam o mundo mais desenvolvido”. A declaração ocorreu durante sua intervenção na segunda sessão plenária da cúpula de líderes no Museu de Arte Moderna (MAM), no Rio de Janeiro, focada em multilateralismo, economia e inteligência artificial (IA).
O Plano Marshall foi a ajuda financeira dos Estados Unidos para a reconstrução da Europa pós-Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Para Lula, enquanto FMI e Banco Mundial se voltam ao mundo desenvolvido, “os fluxos de ajuda internacional caíram, e o custo da dívida dos países mais pobres aumentou”. Aproveitando a cúpula do Brics, presidida pelo Brasil, Lula pediu mais poder para os países do Sul Global no FMI, cuja missão inclui cooperar para o bom funcionamento do sistema financeiro global e apoiar países em crises econômicas.
“As distorções são inegáveis”, declarou Lula. “Para fazer jus ao nosso peso econômico, o poder de voto dos membros do Brics no FMI deveria corresponder a pelo menos 25% – e não os 18% que detemos atualmente”, completou. O presidente brasileiro criticou o neoliberalismo (que prega a diminuição do Estado na economia), apontando-o como responsável por aprofundar desigualdades. “Três mil bilionários ganharam US$ 6,5 trilhões desde 2015”, exemplificou.
Banco do Brics: elogios ao Novo Banco de Desenvolvimento (NDB)
Durante sua fala, o presidente elogiou o Novo Banco de Desenvolvimento (New Development Bank, NDB), conhecido como Banco do Brics. “O Novo Banco de Desenvolvimento dá uma lição de governança”, afirmou, citando o ingresso recente da Argélia e os processos de adesão da Colômbia, Uzbequistão e Peru. Para Lula, isso atesta a capacidade do NDB de oferecer financiamento para uma transição justa e soberana.
Criado pelo Brics em 2015, o banco de fomento é comandado pela ex-presidente Dilma Rousseff desde 2023 e tem sede na China. Países de fora do Brics podem se habilitar para participar do NDB, e Dilma discursou na sessão deste domingo.
Ainda sobre a desigualdade global, Lula defendeu a justiça tributária (ricos pagando mais impostos) e o combate à evasão fiscal, classificando-as como “fundamentais para consolidar estratégias de crescimento inclusivas e sustentáveis, próprias para o século XXI”.
Comércio e Protecionismo
Lula também criticou a Organização Mundial do Comércio (OMC), afirmando que “Sua paralisia e o recrudescimento do protecionismo criam uma situação de assimetria insustentável para os países em desenvolvimento”. A declaração surge no ano em que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, intensificou uma guerra tarifária, aplicando tarifas a produtos importados para proteger a indústria americana.
Ineditismo da reunião e expansão do Brics
O presidente brasileiro ressaltou o ineditismo da 17ª reunião de líderes do Brics, que pela primeira vez reúne países-parceiros, coroando a histórica expansão do bloco. A modalidade de país-parceiro foi criada na cúpula de Kasan, Rússia, em 2024. A principal diferença para um país-membro é que os parceiros não têm poder de voto nas discussões. “Os países convidados trazem consigo perspectivas de diferentes contextos regionais que enriquecem a articulação de uma visão própria do Sul Global. O Brics é ator incontornável na luta por um mundo multipolar, menos assimétrico e mais pacífico”, declarou.
Entenda o Brics
O Brics é formado por 11 países-membros: África do Sul, Arábia Saudita, Brasil, China, Egito, Emirados Árabes Unidos, Etiópia, Indonésia, Índia, Irã e Rússia. Juntos, representam 39% da economia mundial e 48,5% da população do planeta. Os países com status de parceiros são: Belarus, Bolívia, Cazaquistão, Cuba, Malásia, Nigéria, Tailândia, Uganda, Uzbequistão e Vietnã.
O Brics se identifica como nações do Sul Global, buscando maior cooperação interna e tratamento mais equânime em organismos internacionais. Os países-membros se alternam anualmente na presidência; o Brasil será sucedido pela Índia em 2026.











