
O que deveria ser um processo de licitação pública transparente transformou-se em um enredo policial digno de filme. Documentos obtidos por nossa equipe revelam um suposto esquema montado dentro da Agência Amazonense de Desenvolvimento Econômico, Social e Ambiental (Aadesam) para beneficiar uma empresa de estrutura questionável. O caso envolve segredos, omissões e valores que, num passe de mágica, saltaram de forma assustadora da noite para o dia.
A mágica dos números: de 1 milhão para 3 milhões
O primeiro ponto que tira o sono de qualquer contribuinte é a matemática inexplicável aplicada neste contrato. A proposta inicial apresentada pela empresa “DL Maquine Ltda” foi de R$ 1.320.000,00. No entanto, o valor final homologado pela presidência da agência foi de impressionantes R$ 3.273.530,00.
Onde foi parar a diferença? Sem qualquer justificativa plausível encontrada nos autos do processo, esse aumento milionário — uma majoração de quase 150% — aponta para um robusto indício de sobrepreço e dano direto aos cofres públicos. É o tipo de conta que não fecha para o cidadão, mas que parece muito lucrativa para alguns poucos.
Uma empresa de muitas faces
Os dados sobre a vencedora do certame, a “DL Maquine Ltda” (CNPJ 48.655.205/0001-31) apresenta características clássicas do que o mercado chama de “empresa prateleira”.
- Capital social irrisório: A empresa possui um capital social de apenas R$ 50.000,00, um valor incompatível para quem pretende administrar um contrato de mais de R$ 3,2 milhões com o poder público.
- Desvio de finalidade: O dado mais alarmante, confirmado por nossa checagem na Receita Federal, é que a atividade econômica principal da empresa é o “Comércio atacadista de produtos de higiene, limpeza e conservação domiciliar”. No entanto, a denúncia aponta que a empresa apresentou atestados de capacidade técnica como “gráfica”. Como uma empresa de limpeza se torna uma gigante gráfica da noite para o dia?
- Cronologia duvidosa: Documentos sugerem que a empresa apresentou atestados de períodos em que sequer existia formalmente para tal atividade. Uma verdadeira “viagem no tempo” corporativa.
Licitação nas trevas e falta de transparência
Enquanto a Lei de Licitações exige publicidade total, o Pregão Eletrônico nº 012/2025 parece ter sido tratado como segredo de estado. Buscas nos portais oficiais de transparência revelam uma dificuldade imensa em localizar os detalhes do processo, sugerindo uma ocultação deliberada.
Essa prática, conhecida como “esconder o edital”, serve para impedir que empresas sérias e concorrentes reais participem da disputa, deixando o caminho livre para a “carta marcada” vencer sem obstáculos. A mudança do ramo de atividade da empresa (CNAE) às vésperas do certame é apenas mais um sinal de fumaça indicando fogo alto nos bastidores.
O martelo da justiça e a nulidade absoluta
A representação protocolada sobre o caso é contundente. Não se pede apenas a suspensão, mas a nulidade absoluta do contrato e o envio imediato do caso ao Ministério Público do Estado do Amazonas (MPAM).
As acusações que pesam sobre os envolvidos são gravíssimas:
- Fraude à licitação (Art. 337-F do Código Penal)
- Falsidade ideológica (Art. 299 do Código Penal)
- Improbidade administrativa
Este processo, descrito na denúncia como um “natimorto”, parece ter sido concebido no escuro com um único objetivo: drenar recursos públicos que deveriam servir à população amazonense. Resta agora saber: quem mais está operando nessas sombras?











