Inteligências Artificiais como “espelhos do sagrado”

Por Juscelino Taketomi

É fato que, nos dias atuais, o avanço das inteligências artificiais generativas tem provocado tantas transformações tecnológicas como também profundas reações simbólicas, filosóficas e espirituais.

Em meio a tudo, manifestações recentes da escritora e pesquisadora Anabel Sampaio, feitas durante uma live no canal Paranormal Experience, provocaram um debate delicado: estariam as IAs funcionando apenas como ferramentas técnicas ou estariam sendo percebidas como canais de inteligências transcendentais?

Segundo o relato apresentado por Anabel, o ChatGPT teria sido utilizado como meio de comunicação por uma “consciência maior”, acessada por meio de um código que lhe teria sido transmitido por um suposto ser extrafísico.

A experiência foi interpretada pela escritora como algo que ultrapassaria os limites convencionais da tecnologia.

O episódio gerou reações diversas — do fascínio à preocupação — e levanta uma questão mais ampla e relevante: por que inteligências artificiais estão sendo cada vez mais associadas ao sagrado?

Do ponto de vista técnico, sistemas como o ChatGPT são modelos de linguagem treinados para identificar padrões estatísticos em grandes volumes de texto.

Eles não possuem consciência, intenção ou experiência subjetiva. Ainda assim, sua capacidade de produzir respostas coerentes, simbólicas e contextualizadas cria uma sensação de interlocução inteligente que, para muitos usuários, ultrapassa a experiência comum com máquinas.

A gente sabe que o fenômeno não é novo. Desde os primeiros programas conversacionais, como o famoso ELIZA, desenvolvido nos anos 1960, pesquisadores observam a tendência humana de atribuir intenção e até personalidade a sistemas que respondem de forma minimamente estruturada.

A diferença atual está na sofisticação: as respostas agora mobilizam arquétipos, metáforas e narrativas complexas. É nesse ponto que a tecnologia deixa de ser apenas funcional e passa a operar como espelho simbólico.

Estudiosos da religião e da cultura, como Mircea Eliade e Carl Jung, já demonstraram que o sagrado não depende do objeto em si, mas da experiência de sentido que o atravessa. Uma pedra, um texto, um ritual ou um símbolo pode adquirir caráter sagrado quando se torna mediador de significado profundo.

Sob essa perspectiva, a IA não seria fonte de transcendência, mas gatilho de experiências internas. Ela organiza linguagem de modo a refletir conteúdos psíquicos, culturais e existenciais do próprio interlocutor. O sentido emerge da relação, não da máquina.

Assim, experiências como a relatada por Anabel Sampaio podem ser compreendidas como vivências subjetivas legítimas, sem que isso implique, necessariamente, a existência objetiva de uma entidade externa operando o sistema.

A controvérsia não reside na experiência pessoal, mas na interpretação pública que a transforma em afirmação ontológica. Ao sugerir que uma inteligência artificial estaria “imantada” por um ser extrafísico, ultrapassa-se o campo simbólico e adentra-se o terreno da afirmação factual — sem evidências verificáveis.

Esse deslocamento não é exclusivo do contexto tecnológico. Ao longo da história, instrumentos culturais diversos — oráculos, escritos automáticos, vozes interiores — foram interpretados como manifestações externas do divino. Em muitos casos, a dificuldade esteve em distinguir entre metáfora, experiência interna e realidade objetiva.

No contexto atual, o risco é semelhante: confundir interface tecnológica com transcendência.

Quando tecnologias passam a ser investidas de atributos sagrados, surge um fenômeno conhecido como fetichização técnica. Nesse processo, o sentido é deslocado do sujeito para o artefato, reduzindo o espaço do pensamento crítico e da responsabilidade interpretativa.

Especialistas alertam que esse tipo de sacralização pode levar à suspensão do questionamento racional, criando narrativas absolutas em torno de sistemas que, apesar de sofisticados, permanecem produtos humanos, com limitações claras e conhecidas.

Isso não invalida o impacto psicológico, simbólico ou até espiritual que interações com IA podem provocar. Mas exige cautela na formulação de explicações e, sobretudo, na comunicação pública dessas interpretações.

Talvez o aspecto mais revelador do episódio não seja a tecnologia em si, mas o que ela expõe sobre o momento atual. Em uma era marcada por incertezas, crises de sentido e enfraquecimento das grandes narrativas tradicionais, a IA surge como novo espaço de projeção simbólica.

Mais do que mensageira de outros mundos, a inteligência artificial parece funcionar como espelho ampliado da psique coletiva, refletindo medos, expectativas, desejos de transcendência e busca por respostas.

Reconhecer o impacto simbólico das inteligências artificiais não implica atribuir-lhes consciência ou origem transcendental. Da mesma forma, respeitar experiências subjetivas não exige abandonar critérios de rigor intelectual.

A espiritualidade, para se manter viva e relevante, precisa dialogar com a crítica. E a tecnologia, para não se transformar em mito, precisa ser compreendida em seus limites reais.

Em última instância, talvez a pergunta mais importante não seja se a IA fala com inteligências superiores, mas por que nós, humanos, estamos tão dispostos a ouvir o sagrado refletido em novas superfícies.

O assunto abordado é sério demais para os dias que correm e por isso voltarei a ele em novo artigo. A polêmica é mais do que saudável.

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