
Ocupar as poltronas do Teatro Amazonas neste domingo, dia 5 de abril, para o concerto gratuito em homenagem ao centenário da pianista Jerusa Mustafa, é mais do que um roteiro de lazer. É um exercício de sobrevivência da nossa própria história. Promovido pelo Governo do Amazonas, por meio da Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa (SEC), o evento traz a Orquestra de Câmara do Amazonas (OCA) para o palco em uma celebração que, embora necessária, nos faz refletir sobre como tratamos nossos ícones após as cortinas se fecharem.
Jerusa Mustafa não foi apenas uma musicista; ela foi um pilar da formação pianística no estado. Ver esse legado ser interpretado por gerações atuais é o reconhecimento de que a música erudita no Amazonas não é um eco do passado, mas uma construção viva que resiste ao tempo e às dificuldades de fomento.
Tradição que se renova no palco
Sob a regência e direção musical do maestro Marcelo de Jesus, o espetáculo propõe um diálogo inteligente entre o clássico internacional e a alma brasileira. Com arranjos de Adonnay Júnior, o repertório não se limita ao óbvio e coloca à prova o talento de pianistas que hoje mantêm a chama do instrumento acesa em Manaus.
A estrutura do concerto destaca obras que exigem técnica e sensibilidade. Confira alguns dos momentos planejados para essa noite histórica:
- Johann Sebastian Bach: o “Concerto para piano nº 7 em sol menor” ganha vida nas mãos de Irina Kazak, Átila de Paula e João Gustavo Kienen.
- Maurice Ravel: a peça “Pavane” será interpretada por Pedro Panilha, trazendo o rigor da escola europeia.
- Arnaldo Rebelo: a “Valsa Amazônica nº 2”, com Bruno Nascimento, reforça a nossa identidade sonora regional.
- Luciano Dantas: o pianista interpreta “Encontro das Águas”, uma obra que dialoga diretamente com a paisagem natural que nos cerca.
O piano como herança e desafio
O programa ainda inclui nomes como Victor Lins, Nikolai Rimsky-Korsakov e até o prelúdio “Gota d’água” de Frédéric Chopin, este último executado pelo próprio maestro Marcelo de Jesus. Essa diversidade de intérpretes, que vai de nomes consagrados a jovens talentos como Enzo Valentim Vieira e João Gabriel, mostra que a escola de Jerusa Mustafa frutificou.
Contudo, a crítica que fica é sobre a constância dessas homenagens. Celebrar o centenário é um dever institucional, mas a verdadeira valorização da memória musical deve ocorrer no dia a dia, com a preservação de acervos, o apoio contínuo aos novos pianistas e a manutenção do piano como um instrumento acessível e não apenas restrito às elites.

Valorização da identidade amazonense
A homenagem a Jerusa Mustafa reforça o compromisso com artistas que moldaram o cenário cultural do estado. O espetáculo deste domingo é uma oportunidade única para o público entender que o Amazonas possui uma linhagem de excelência no piano que merece ser conhecida pelas novas gerações.
A entrada gratuita facilita o acesso, mas o valor real do evento está na percepção de que a cultura é um patrimônio imaterial que precisa de vigilância constante. O centenário de Jerusa é um marco, mas a continuidade desse trabalho é o que garantirá que, daqui a cem anos, outros nomes também sejam lembrados com a mesma honra no palco do nosso maior símbolo arquitetônico.










