
O sábado (14/2) amanheceu com um contraste cruel na capital venezuelana. Enquanto 17 famílias celebravam o abraço do reencontro com parentes libertados durante a madrugada, outras dezenas decidiram colocar a própria saúde em risco para serem ouvidas. O início de uma greve de fome em frente à sede da Polícia Nacional, conhecida como Zona 7, marca o esgotamento da paciência de quem espera pela prometida Lei de Anistia. O adiamento da votação no parlamento transformou a esperança em desespero, criando um cenário de tensão que o governo interino de Delcy Rodríguez precisará gerenciar com urgência.
O protesto desesperado
A imagem é forte e reflete a angústia de semanas de vigília. Cerca de dez mulheres, usando máscaras, deitaram-se em fila na entrada da prisão. Ao lado, uma lista escrita à mão identificava quem ali abria mão de se alimentar. Elas não pedem favores, mas a celeridade de um processo que já foi anunciado sob forte pressão internacional.
“Dormir acalma a fome”, disse uma das manifestantes que preferiu não se identificar. A frase resume a exaustão física e mental de quem acampa no local há mais de um mês. Para elas, a liberdade a conta-gotas não é suficiente diante das promessas de reconciliação nacional.
Mães em agonia
Evelin Quiaro, funcionária do serviço de migração de 46 anos, é o rosto dessa dor. Sua última refeição foi na madrugada: biscoitos com presunto. Agora, ela enfrenta o desconhecido de uma greve de fome pelo filho de 30 anos, detido desde novembro de 2025 sob acusações pesadas de terrorismo e associação criminosa.
“Realmente não estamos preparadas, nunca fiz isso na vida”, confessou Quiaro.
A atitude drástica visa arrancar do Estado uma resposta concreta. Não se trata apenas de política, mas de mães que veem o tempo passar enquanto seus filhos permanecem em celas superlotadas, mesmo após a queda do regime de Nicolás Maduro em janeiro.
Promessas e atrasos
O contexto político é volátil. Desde a intervenção militar que colocou Delcy Rodríguez na presidência interina, a expectativa por mudanças foi alta. A Lei de Anistia, proposta em 30 de janeiro, deveria ser o grande gesto de pacificação, cobrindo 27 anos de chavismo e libertando centenas.
Contudo, a burocracia e as divergências legislativas travaram o processo. A aprovação final foi adiada duas vezes, frustrando as expectativas criadas pelo próprio presidente do Parlamento, Jorge Rodríguez, que havia prometido a medida para o dia 10 de fevereiro. A nova data é 19 de fevereiro, mas para quem tem fome de justiça, uma semana parece uma eternidade.
Liberdade seletiva
É inegável que houve avanços. A libertação de José Elías Torres, secretário-geral da Confederação dos Trabalhadores da Venezuela (CTV), e de outros 16 detidos nesta madrugada mostra que a engrenagem está girando, ainda que lentamente. Segundo a ONG Foro Penal, 431 presos políticos já obtiveram liberdade condicional desde janeiro.
Porém, 644 pessoas ainda continuam presas. Para Sachare Torrez, de 23 anos, que também aderiu à greve, a conta precisa fechar.
“O que estamos pedindo com isso é que todos sejam libertados, como nos foi prometido”, afirmou. A sensação de que a liberdade virou uma loteria aumenta a tensão nas ruas.
Medida drástica
A decisão de parar de comer, sob o sol forte e protegidas apenas por guarda-sóis, é a última cartada dessas famílias. Elas já tentaram correntes humanas, vigílias e apelos diretos às autoridades. Agora, colocam a própria vida na balança política.
O governo interino enfrenta um dilema. Precisa mostrar serviço a Washington e à comunidade internacional, garantindo direitos humanos, mas esbarra nas complexidades internas de desmontar décadas de um sistema judiciário viciado. Até a próxima sessão legislativa, os olhos do mundo estarão voltados para as mulheres deitadas na Zona 7, que decidiram que a fome de justiça dói mais que a fome do estômago.










