EUA x CHINA: o cabo de guerra pela América Latina

Por Juscelino Taketomi

A prisão do agora ex-ditador Nicolás Maduro marca mais do que o fim de um ciclo político na Venezuela. O episódio ocorre em um momento sensível da política internacional e expõe, de forma inédita, a intensificação da disputa geopolítica entre Estados Unidos e China pela influência na América Latina. Longe de representar uma vitória definitiva de Washington, o novo cenário revela um tabuleiro mais complexo, no qual o poder já não se mede apenas por tropas ou sanções, mas pelo controle de infraestrutura, financiamento e rotas comerciais estratégicas.

A Venezuela, detentora das maiores reservas de petróleo do mundo e situada em posição geográfica estratégica no Caribe, sempre foi vista como peça-chave na política hemisférica. As reservas petrolíferas venezuelanas são estimadas em 303 bilhões de barris. Considerando a cotação do petróleo (Brent) em torno de US$ 60,75 por barril, o valor potencial dessas reservas alcança aproximadamente US$ 18,4 trilhões. A cobiça internacional, portanto, é tácita. Nesse contexto, a queda de Maduro reabre espaço para reposicionamentos diplomáticos, mas não apaga décadas de investimentos chineses nem a profunda integração econômica construída por Pequim na região.

Modelos de poder em confronto direto

A disputa atual entre Estados Unidos e China na América Latina reflete dois modelos distintos de projeção de poder. Os Estados Unidos mantêm uma estratégia baseada em pressão política, sanções econômicas, alianças militares e, em casos extremos, intervenções diretas ou indiretas. Esse modelo, que sustentou a hegemonia norte-americana ao longo do século XX, apoiou-se no controle do dólar, das principais rotas comerciais e na ausência de grandes competidores no hemisfério ocidental.

A China, por sua vez, adotou uma abordagem menos confrontacional e mais estrutural. Em vez de impor mudanças políticas, Pequim investe pesadamente em infraestrutura, energia, logística, telecomunicações e crédito de longo prazo. O resultado é a criação de uma dependência econômica gradual, porém profunda, que independe de quem esteja no poder. No curto prazo, a prisão de Maduro significa um ganho político para Washington ao enfraquecer um dos governos mais abertamente hostis aos Estados Unidos e alinhados à Rússia e à China. No entanto, analistas alertam que o impacto estratégico do episódio é limitado, pois os principais ativos venezuelanos já estão fortemente vinculados ao capital chinês.

A influência econômica além da ideologia

Diferentemente das potências ocidentais, Pequim negocia com governos de distintas orientações ideológicas e tende a preservar seus interesses independentemente de mudanças políticas internas. A ideologia importa pouco, pois a economia é o que realmente vale. Na prática, um eventual novo governo em Caracas enfrentará o desafio de reconstruir relações com o Ocidente sem romper com o capital chinês, que permanece essencial para a estabilidade econômica do país. A Venezuela é apenas uma peça de um cenário mais amplo, onde a presença chinesa cresceu de forma significativa em países estratégicos da América Latina nos últimos anos.

No Brasil, a China é o principal parceiro comercial e financia projetos em portos, energia e logística, além de exercer papel central no âmbito dos (BRICS).

Na Argentina, os contratos financeiros conhecidos como “swaps cambiais” têm sido decisivos para mitigar crises recorrentes e estabilizar o peso argentino.

No Chile, Pequim consolidou presença nos setores de mineração, energia e infraestrutura portuária, enquanto no Equador o país diversifica alianças para reduzir a dependência histórica de Washington.

O movimento regional evidencia uma tendência clara, na qual governos latino-americanos buscam ampliar opções e diminuir a dependência exclusiva dos Estados Unidos, sobretudo diante das condições impostas por organismos financeiros tradicionais.

O dilema de Washington e o futuro multipolar

Apesar de manter ampla presença militar na região, os Estados Unidos enfrentam limitações crescentes para transformar poder militar em influência econômica duradoura. Ao contrário do passado, intervenções diretas hoje geram alto custo político, resistência regional e risco de isolamento diplomático. Além disso, Washington não dispõe de um pacote de investimentos comparável ao chinês.

Enquanto Pequim oferece bilhões de dólares em crédito e infraestrutura sem exigências políticas explícitas, os Estados Unidos frequentemente condicionam apoio financeiro a reformas estruturais impopulares. Esse desequilíbrio reduz a capacidade norte-americana de competir no chamado jogo longo da geopolítica contemporânea.

O cenário pós-Maduro aponta para um ambiente de maior tensão e competição na América Latina. Especialistas preveem aumento da pressão diplomática dos Estados Unidos para conter a expansão chinesa, enquanto Pequim continuará ampliando sua presença de forma pragmática e silenciosa. Não se trata de uma nova Guerra Fria nos moldes do século XX, mas de uma disputa mais sofisticada, centrada em infraestrutura, cadeias produtivas, sistemas financeiros e rotas comerciais.

A prisão de Nicolás Maduro pode redefinir o governo da Venezuela, mas não altera por si só a dinâmica estrutural da região. No mundo multipolar que se desenha, a disputa pelo poder se decide por quem constrói os sistemas que sustentam a economia global. A força bruta faz barulho, mas não soma a contento.

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