EUA abandonam dezenas de agências da ONU e acendeu um sinal vermelho global

A assinatura de uma nova ordem executiva pelo presidente Donald Trump marca um dos momentos mais drásticos da diplomacia moderna. Ao suspender a participação norte-americana em 66 agências vinculadas à Organização das Nações Unidas (ONU), Washington envia um recado claro de que o multilateralismo, da forma como o conhecemos, não faz mais parte das prioridades da Casa Branca. Esta decisão não é apenas um corte de gastos, mas uma mudança profunda na forma como a maior potência do mundo enxerga a colaboração internacional e a própria soberania.

O governo atual descreve essas instituições como espaços que promovem iniciativas desnecessárias e que muitas vezes contrariam os interesses nacionais. Com o apoio do secretário de Estado, Marco Rubio, a administração sustenta que muitas dessas agências são mal geridas ou capturadas por agendas ideológicas. No entanto, o que para uns é uma defesa da autonomia, para especialistas e aliados internacionais representa um vácuo de liderança que pode ser preenchido por outras potências globais.

O movimento liderado por Trump foca na ideia de que os recursos dos Estados Unidos da América (EUA) devem ser aplicados apenas onde existe um alinhamento direto com os seus objetivos. Marco Rubio afirmou que as instituições afetadas são “redundantes no seu âmbito, mal geridas, desnecessárias, esbanjadoras, capturadas pelos interesses de agentes que promovem as suas próprias agendas contrárias às nossas, ou uma ameaça à soberania da nossa nação”.

Essa abordagem seletiva reflete a visão de que a cooperação global histórica já não atende aos propósitos americanos. O afastamento de 66 organizações internacionais coloca o país em uma posição de isolamento inédita na história recente. Daniel Forti, diretor no Grupo de Crise Internacional, resumiu a situação ao dizer que essa postura é “a cristalização da abordagem dos EUA ao multilateralismo, que é ‘o meu caminho ou a autoestrada'”.

O fim do compromisso climático e as consequências ambientais

Um dos pontos mais sensíveis da medida é a saída da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas. Ao abandonar o tratado de 1992 que sustenta o acordo de Paris, o governo americano ignora décadas de consenso científico sobre o aquecimento global. Trump já havia manifestado em diversas ocasiões que considera as mudanças no clima uma farsa, e agora oficializa essa percepção ao deixar os EUA como a única nação fora desse quadro de proteção global.

As críticas internas foram imediatas e pesadas. Gina McCarthy, antiga conselheira para o clima, classificou a decisão como “míope, embaraçosa e tola”. O temor de especialistas como Rob Jackson é que esse recuo sirva de pretexto para que outros países também abandonem suas metas de redução de emissões, o que poderia acelerar o degelo de acordos ambientais em todo o mundo.

As áreas mais atingidas pelo corte de financiamento

O impacto da ordem executiva se estende por setores vitais da ajuda humanitária e do desenvolvimento social. Diversas frentes de atuação da Organização das Nações Unidas perderão o suporte técnico e financeiro de Washington, o que já começou a gerar cortes de pessoal e encerramento de projetos em países vulneráveis.

  • O Fundo das Nações Unidas para a População (UNFPA) terá suas atividades de saúde sexual e reprodutiva prejudicadas globalmente.
  • A assistência através da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID) foi reduzida, forçando organizações não governamentais a interromperem serviços essenciais.
  • Instituições como a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) e o Conselho de Direitos Humanos já haviam tido o apoio suspenso anteriormente.
  • O corte atinge também grupos técnicos menores como o Comitê Consultivo Internacional do Algodão e a Organização Internacional de Madeiras Tropicais.
  • Agências voltadas para refugiados palestinos, como a Agência da ONU para os Refugiados Palestinos (UNRWA), enfrentam uma crise financeira sem precedentes com o fim dos repasses americanos.

A nova disputa de influência com a China

Apesar do recuo em agências de caráter social e ambiental, a administração Trump não pretende abrir mão de todo o cenário internacional. O plano é concentrar forças e recursos em organismos que definem padrões globais de tecnologia e trabalho. O objetivo é competir diretamente com a influência crescente da China em setores estratégicos como a União Internacional das Telecomunicações e a Organização Marítima Internacional.

Este cenário de disputa técnica ocorre em meio a ações militares e diplomáticas agressivas. A captura recente de Nicolás Maduro na Venezuela e as pressões territoriais sobre a Groenlândia mostram que o governo prefere a ação direta ao diálogo institucional das Nações Unidas. O mundo observa agora um novo tipo de poder americano, que descarta a diplomacia coletiva em favor de uma hegemonia baseada na força e na competição econômica direta.

Fonte: https://pt.euronews.com/2026/01/08/trump-retira-eua-do-tratado-climatico-da-onu-e-65-outros-organismos-globais

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