
A política brasileira, na sua essência mais mundana, raramente trata de ideias e quase sempre se resume a um jogo de sombras e simulações. O encontro ocorrido nesta quinta-feira, 9 de abril, na Federação da Agricultura do Rio Grande do Sul (Farsul) entre Eduardo Leite e Ronaldo Caiado é o exemplo perfeito dessa encenação.
Após semanas de um “desencanto” público que beirava o infantilismo político, o governador gaúcho e o agora ungido pré-candidato do PSD), Ronaldo Caiado, decidiram que o figurino da unidade é mais lucrativo do que o da discórdia escancarada.
Não se enganem com os sorrisos protocolares ou com a retórica da concórdia. O que vimos em Porto Alegre foi a tentativa desesperada de salvar as aparências de uma sigla que, sob o comando de Gilberto Kassab, opera como um camaleão institucional.
Leite, que viu suas pretensões minguarem após a desistência de Ratinho Júnior e a ascensão de Caiado, agora tenta vender uma “convergência” que cheira a rendição tática.
“Temos muito mais pontos de convergência do que diferenças”, afirmou Eduardo Leite, em uma frase que tenta esconder o abismo ideológico que separa o progressismo tecnocrático gaúcho do conservadorismo pragmático goiano.
A carta de Leite e o fetiche institucional
O ponto nevrálgico dessa reunião não foi o aperto de mãos, mas o documento entregue por Leite a Caiado. A “Carta ao pré-candidato” é um exercício de equilibrismo que revela o medo da elite política de perder o controle sobre a narrativa da ordem.
Ao questionar a anistia para os eventos de 8 de janeiro, Leite não está apenas defendendo o devido processo legal, ele está demarcando território contra o que chama de “polarização radicalizada”, um termo que a classe política usa para rotular qualquer movimento que escape ao seu controle burocrático.
O governador gaúcho teme que um governo Caiado comece com um aceno forte ao bolsonarismo, o que, na sua visão, implodiria a ponte com o centro.
Para Caiado, que já mira o eleitorado órfão do ex-presidente, a anistia é um trunfo estratégico, não uma questão de princípios metafísicos. É a colisão entre quem quer gerir o sistema e quem precisa de uma base popular inflamada para chegar ao Palácio do Planalto.
O imprevisto aéreo e o simbolismo da inércia
Curiosamente, o encontro só aconteceu após um atraso digno de nota. Uma pane geral no controle de tráfego aéreo em São Paulo manteve Leite preso em um avião em Congonhas por horas.
Há um simbolismo quase poético nisso, a liderança política brasileira, sempre travada por problemas estruturais básicos, enquanto tenta discutir o destino da nação dentro de gabinetes refrigerados.
Enquanto o tráfego aéreo colapsava, os dois líderes discutiam como dividir palanques em estados onde o PSD flerta abertamente com o Partido dos Trabalhadores (PT).
- Na Bahia, o pragmatismo fala mais alto e o partido caminha com a esquerda
- Em Goiás e no Rio Grande do Sul, o discurso é de oposição ferrenha
- A anistia permanece como o grande divisor de águas entre a “terceira via” e a direita real
- A busca pela responsabilidade fiscal serve como a única cola que mantém o grupo unido
A sobrevivência do estamento político
O que resta desse encontro, além da troca de elogios vazios, é a constatação de que o PSD tenta se consolidar como o fiel da balança para 2026.
Caiado, com sua experiência de quem sobreviveu às décadas de transformações na direita brasileira, sabe que precisa de Leite para suavizar sua imagem perante o establishment financeiro.
Já Leite sabe que sua sobrevivência política depende de não ser atropelado pelo projeto nacional do partido.
Não há aqui uma busca pela verdade ou pelo bem comum, mas uma negociação de espaços. O “projeto nacional” mencionado exaustivamente por ambos é, até agora, uma folha em branco preenchida com platitudes sobre equilíbrio e diálogo.
No fim das contas, a reunião na Farsul foi apenas mais um ato no longo teatro da sucessão presidencial, onde os atores trocam de máscara, mas o roteiro de preservação do poder continua rigorosamente o mesmo.










