
O que estamos assistindo nos bastidores de Brasília transcende a falência de uma instituição financeira. O caso do Banco Master deixou de ser apenas uma questão de liquidez ou fraude bancária para se tornar o palco de um perigoso teste de força institucional. A disputa aberta entre o Tribunal de Contas da União (TCU) e o Banco Central (BC), somada às recentes revelações sobre tentativas de cooptação de influenciadores digitais, desenha um cenário onde a técnica corre o risco de ser sufocada pela política e pela desinformação.
Não se trata de defender banqueiros ou burocratas, mas de proteger a estabilidade do sistema financeiro nacional. Quando a fiscalização flerta com a intimidação e a defesa se utiliza de táticas de guerrilha digital, o maior prejudicado, invariavelmente, é a credibilidade do país.
Quando a fiscalização vira pressão política
A decisão do ministro Jhonatan de Jesus, do TCU, de determinar uma inspeção presencial no Banco Central para apurar a liquidação do Master acendeu um alerta vermelho no mercado. Embora a fiscalização seja dever do tribunal, a forma como a medida foi imposta soou como uma intervenção indevida na autonomia da autoridade monetária.
Felizmente, houve um recuo tático nesta quarta-feira, 7/1, com a suspensão da inspeção para busca de um consenso. Contudo, o estrago na percepção de risco já foi feito. É preciso pontuar com clareza os riscos envolvidos nessa queda de braço.
- Ameaça à autonomia técnica O Banco Central precisa ter liberdade para liquidar instituições insolventes sem o temor de represálias políticas imediatas. Se cada decisão técnica for questionada presencialmente por auditores externos no calor do momento, cria-se uma paralisia regulatória. Quem terá coragem de assinar a liquidação do próximo banco fraudulento sabendo que o tribunal de contas baterá à sua porta no dia seguinte?
- Insegurança jurídica O mercado financeiro opera à base de confiança e regras claras. A tentativa de reverter ou questionar administrativamente atos do BC via TCU gera um ruído que afasta investidores e encarece o crédito. A mensagem que fica é que, no Brasil, nem mesmo a decisão do regulador máximo é definitiva.
A guerra de narrativas no submundo digital
Se a briga institucional já é grave, o surgimento de uma ofensiva coordenada nas redes sociais adiciona uma camada sórdida ao episódio. As denúncias de que perfis de fofoca e influenciadores teriam recebido propostas financeiras para atacar a reputação dos investigadores e defender o Banco Master revelam o “vale-tudo” em que se transformou a defesa de crimes de colarinho branco.
Essa estratégia de “assassinato de reputação” visa criar uma cortina de fumaça. Ao tentar transformar os liquidantes e a Polícia Federal em vilões, busca-se desviar o foco do problema real: um rombo bilionário e a gestão temerária que levou a instituição à lona. É a tentativa de vencer no tribunal da internet o que já foi perdido nos balanços contábeis.

Enquanto Brasília discute competências e influenciadores debatem narrativas, a realidade se impõe através dos números. O Fundo Garantidor de Crédito se prepara para o maior desembolso de sua história, estimado em R$ 41 bilhões.
Esse dinheiro não brota do chão. Ele sai do sistema bancário, encarece as tarifas e diminui a eficiência do mercado como um todo. Além disso, a incerteza sobre os pagamentos e as cláusulas contratuais de socorro deixam milhares de investidores em um limbo angustiante.
O desfecho do caso Master definirá a régua moral e técnica para os próximos anos. Se a pressão política do TCU dobrar o Banco Central ou se as narrativas compradas nas redes sociais conseguirem frear as investigações, estaremos oficializando a impunidade institucionalizada. Por outro lado, se a técnica prevalecer e as responsabilidades forem apuradas com rigor, o sistema sairá fortalecido. O Brasil não pode se dar ao luxo de transformar seu Banco Central em mais uma repartição sujeita aos humores da política.











