
Por Dagmar Rivieri (*)
Quando olho para trás e penso em como tudo começou, lembro que não existia um grande plano estruturado. O que existia era a convivência diária com a realidade da periferia de São Paulo e uma certeza que sempre me acompanhou: a educação é a ferramenta mais poderosa para transformar vidas.
Vivi toda a minha vida no Capão Redondo, um território marcado por desigualdades profundas e pela falta de oportunidades para muitas crianças e jovens. Crescer nesse contexto significa, muitas vezes, lidar desde cedo com a violência, com a ausência de perspectivas e com a sensação de que o futuro já está determinado antes mesmo de começar.
Foi nesse cenário que tomei uma decisão simples, mas que mudaria o rumo de muitas histórias: abrir a porta da minha própria casa para algumas crianças da comunidade. No início, eram apenas sete. Não havia estrutura formal, não havia recursos financeiros, não havia planejamento institucional. Havia apenas uma casa, vontade de cuidar e a convicção de que aquelas crianças precisavam de algo essencial que muitas vezes lhes era negado: atenção, escuta, afeto e oportunidades de aprendizado.
Com o passar do tempo, aquela pequena iniciativa dentro da minha casa foi ganhando força. O que começou de forma simples foi se transformando em um espaço de acolhimento, formação e desenvolvimento. Hoje, a instituição atende, todos os anos, mais de mil crianças, adolescentes e jovens. Ao longo dessa trajetória, mais de 30 mil vidas já passaram por esse caminho de aprendizado, convivência e descoberta de possibilidades.
Sempre acreditei que educar vai muito além de ensinar conteúdos. Educar é ajudar cada criança a descobrir quem ela é e quem ela pode se tornar. É fortalecer a autoestima, despertar curiosidade, ampliar horizontes. É garantir acesso à arte, à cultura, ao esporte e ao pensamento crítico. É mostrar que o lugar onde alguém nasce não precisa determinar até onde essa pessoa pode chegar.
Trabalhar na periferia também significa reconhecer a potência que existe nesses territórios. Há talento, criatividade, inteligência e uma enorme capacidade de transformação. O que muitas vezes falta são oportunidades, ambientes seguros de desenvolvimento e adultos que realmente acreditem no potencial dessas crianças e jovens.
Ao longo dos anos, aprendi que cuidar da educação nas periferias é, acima de tudo, cuidar do futuro do país. Cada criança que encontra um caminho diferente da violência, cada jovem que descobre um talento, cada sonho que ganha forma representa uma mudança que ultrapassa o indivíduo e alcança famílias e comunidades inteiras.
Minha história é apenas uma entre tantas que nascem nas periferias brasileiras. Mas ela mostra algo muito importante: grandes transformações podem começar de maneira simples. Às vezes, tudo começa quando alguém decide abrir a porta de casa e acreditar que cada criança merece a chance de escrever uma história diferente.
(*) É fundadora da Casa do Zezinho










