
A COP30, anunciada como a “COP da verdade”, deixou mais perguntas do que respostas. Em artigo publicado na Folha de São Paulo, o renomado climatologista Carlos Nobre declarou sem rodeios: a conferência foi um fracasso em seu objetivo central de transformar compromissos climáticos em ação efetiva.
“A COP30 foi um sucesso? Não”, disse Nobre, sintetizando a frustração da comunidade científica diante de uma conferência que, apesar de avanços pontuais, não apresentou os mapas de caminho essenciais para enfrentar a emergência climática.
Os números apresentados por Nobre são alarmantes: 2024 foi o ano mais quente já registrado, com temperatura 1,55°C acima dos níveis pré-industriais.
As emissões globais cresceram 1,1% em relação ao ano anterior, atingindo o maior patamar da história. E o orçamento de carbono remanescente para manter o aquecimento em 1,5°C? Apenas 130 bilhões de toneladas — o equivalente a três ou quatro anos no ritmo atual.
“As emissões globais precisam começar a cair já em 2026. Não em 2030. Não ‘na próxima década'”, adverte o climatologista, destacando que a redução de pelo menos 5% ao ano nas emissões de combustíveis fósseis deixou de ser escolha política para se tornar exigência física.
O que ficou faltando
Apesar de ter criado pela primeira vez um Pavilhão de Ciências Planetárias e avançado em discussões sobre adaptação e financiamento para conservação florestal, a COP30 falhou no essencial: não estabeleceu planos concretos para eliminar combustíveis fósseis nem para zerar o desmatamento.
Para Nobre, evitar o colapso climático exige medidas drásticas e imediatas: nenhum novo investimento em combustíveis fósseis, eliminação imediata dos subsídios ao setor, expansão justa de energias renováveis e zero emissão fóssil até 2040-2045. Nada disso foi acordado em Belém.
O climatologista chama atenção para os riscos de ultrapassar 1,5°C de aquecimento: sistemas críticos como a Amazônia e os recifes de corais tropicais podem atingir pontos de não retorno, com consequências irreversíveis para a estabilidade ecológica e a segurança humana.
“Só podemos planejar uma transição ordenada porque assumimos que as florestas permanecerão como grandes sumidouros de carbono”, explica Nobre, ressaltando que a ausência de um plano para acabar com o desmatamento compromete qualquer estratégia climática.
Esperança em 2026
Apesar do diagnóstico severo, Nobre reconhece que o Brasil exerceu liderança importante e que o presidente da COP30, André Corrêa do Lago, comprometeu-se a continuar lutando por reduções aceleradas nas emissões durante os 11 meses restantes de liderança brasileira.
“A COP31 pode vir a ser a mais importante da história se o que foi discutido em Belém se transformar, urgentemente, em ação concreta”, conclui o cientista, deixando um recado: o tempo para discussões acabou. Agora, ou o mundo age, ou as consequências serão irreversíveis.
- Carlos Nobre é um dos mais respeitados climatologistas brasileiros, membro da Academia Brasileira de Ciências e especialista em mudanças climáticas e Amazônia.











