
Por Sidney Falcão (*)
A digitalização e os investimentos em tecnologia estão mudando profundamente a forma como escritórios e departamentos jurídicos lidam com informações. Recentemente participamos de dois eventos marcantes do setor: o Projuris Summit e a Fenalaw 2025. Ambos reuniram especialistas e empresas do setor para discutir o uso de dados na advocacia e as novas fronteiras tecnológicas do Direito, e ficou claro que a tecnologia já é peça essencial para decisões mais estratégicas, eficientes e inteligentes.
Alguns dos nossos estudos mostram que 80% das empresas brasileiras já utilizam soluções de Inteligência Artificial para impulsionar suas operações. Complementando esse cenário, o Censo Jurídico, a maior pesquisa do país sobre o setor, aponta que 85% dos advogados reconhecem a necessidade de mais investimentos em tecnologia. O recado é direto: é hora de acelerar, transformar desafios em oportunidades e preparar o mercado jurídico para os próximos passos dessa revolução.
No Projuris Summit, por exemplo, debatemos como modelos de IA generativa vêm sendo aplicados na criação de teses jurídicas, na interpretação automatizada de petições e na simulação de cenários processuais complexos, aplicações que já começam a fazer parte da rotina de escritórios e departamentos jurídicos.
O volume de informações jurídicas cresce em ritmo exponencial. Decisões judiciais, contratos, legislações, petições e pareceres se multiplicam diariamente, formando bases de dados cada vez mais densas e difíceis de interpretar. Nesse cenário, a Inteligência Artificial deixou de ser um diferencial competitivo e passou a ser uma necessidade estratégica.
Automatizar a coleta, a organização e a análise dessas informações, ensinando as máquinas a compreenderem a linguagem do Direito, é o que permite transformar dados dispersos em conhecimento aplicável. Hoje, modelos de aprendizado de máquina e técnicas de processamento de linguagem natural (PLN) já são capazes de cruzar milhões de decisões para apontar tendências jurisprudenciais, antecipar riscos contratuais e até gerar resumos automáticos de petições complexas.
Essas aplicações vão além da automação. Elas tornam o jurídico mais analítico, preditivo e orientado por evidências, apoiando a tomada de decisão com base em dados e aumentando a precisão estratégica das áreas jurídicas. À medida que essas tecnologias evoluem, cresce a também demanda por ferramentas capazes de estruturar, interpretar e gerar inteligência real a partir das informações, consolidando a IA como motor de eficiência e competitividade no setor.
Além de automatizar tarefas, a aplicação da IA no jurídico amplia a integração entre áreas e impulsiona a eficiência operacional. Plataformas modernas de gestão jurídica conectam dados financeiros, contratuais e processuais em um único ambiente, oferecendo uma visão completa da operação e do impacto de cada decisão. Essa conexão reduz retrabalhos entre times, encurta fluxos de aprovação e permite que o jurídico atue de forma mais próxima às estratégias de negócio. Com isso, decisões jurídicas passam a influenciar diretamente o planejamento corporativo, fortalecendo a governança.
Diante de tantas transformações, surge uma pergunta inevitável: o profissional do Direito deve temer pelo futuro da sua profissão? A resposta, a meu ver, é simples: não. O Direito é dinâmico e continuará dependendo de profissionais qualificados para interpretar, atualizar e direcionar o uso das ferramentas tecnológicas. A Inteligência Artificial não substitui o raciocínio jurídico; ela potencializa o trabalho humano, liberando o advogado de tarefas repetitivas e fortalecendo seu papel como analista, estrategista e referência no setor.
O uso inteligente de dados e automação jurídica se torna um diferencial competitivo. Essa nova realidade marca uma mudança profunda na atuação dos órgãos e departamentos jurídicos, que deixam de ser apenas reativos e passam a exercer uma função analítica e estratégica. Escritórios e empresas que adotam soluções baseadas em dados e automação jurídica ganham em agilidade, redução de custos e capacidade de antecipar tendências.
Em um mercado cada vez mais movido por dados, o sucesso depende do equilíbrio entre tecnologia e conhecimento humano. A Inteligência Artificial pode processar milhões de informações em segundos, e o olhar humano dá sentido a cada decisão. E é nesse equilíbrio que o futuro do Direito se constrói.
(*) Sidney Falcão possui mais de 25 anos de experiência na indústria de tecnologia e software, com passagens em cargos de liderança nas áreas de consultoria, vendas e desenvolvimento. Especialista em governança e eficiência operacional, ele atua atualmente como diretor executivo do Projuris, plataforma líder em inteligência legal no mercado jurídico.











