
A recente reconfiguração do poder na Venezuela, marcada pela saída de Nicolás Maduro e a ascensão da presidente interina Delcy Rodríguez, impôs uma nova dinâmica às relações internacionais na América do Sul. O governo brasileiro, observando a movimentação dos Estados Unidos (EUA) e as mudanças em Caracas, adotou uma postura de cautela estratégica. O foco central do Itamaraty deixou de ser o alinhamento ideológico e passou a ser a garantia da estabilidade regional e a segurança nas fronteiras.
Interlocutores do governo federal apontam que a prioridade é evitar um colapso institucional no país vizinho. A avaliação diplomática é que, apesar da tensão inerente à presença norte-americana, a transição conduzida por Rodríguez tem apresentado, até o momento, um controle funcional da máquina pública, afastando o cenário de caos imediato que preocupava as autoridades em Brasília.
O monitoramento da fronteira em Roraima
Um dos pontos nevrálgicos para o Brasil é o impacto humanitário. O Ministério da Defesa (MD) e as autoridades locais seguem monitorando o fluxo migratório na fronteira com Roraima. A preocupação é que uma escalada de violência ou descontrole político possa gerar uma nova onda de refugiados, pressionando os serviços públicos brasileiros.
Até o momento, os dados não indicam um aumento significativo na travessia de venezuelanos após a intervenção, mas o governo brasileiro trabalha com cenários de prevenção. O objetivo é manter a ordem na região e garantir que a disputa política em Caracas não transborde para o território nacional sob a forma de crise humanitária.
A articulação diplomática com Delcy Rodríguez
A presidente interina tem adotado uma estratégia mista para sustentar a governabilidade. Ao mesmo tempo em que mantém diálogo com a base chavista, Delcy Rodríguez busca canais de comunicação com Washington e Brasília. Em declarações recentes, ela classificou o momento como uma “batalha diplomática”, indicando preferência pela negociação em vez do confronto armado.
Para o Brasil, essa postura abre margem para uma atuação mediadora. O presidente Lula (PT) tem se colocado à disposição para facilitar o diálogo, embora o Itamaraty avalie que o espaço para manobras diplomáticas ainda é restrito. A estratégia brasileira é reforçar a soberania venezuelana sem defender o antigo governo de Maduro, cuja imagem sofreu desgaste internacional significativo desde meados de 2024.
O diálogo entre Lula e Donald Trump
A presença dos Estados Unidos no território venezuelano adicionou complexidade à equação. O governo brasileiro observa com atenção os movimentos do presidente Donald Trump, avaliando que qualquer instabilidade interna poderia ser utilizada como justificativa para o uso de força militar mais assertiva.
Recentemente, Lula e Trump conversaram por telefone sobre a situação. Segundo nota do Palácio do Planalto, o tom foi de busca pela preservação da paz. O Brasil tenta equilibrar a defesa da autodeterminação dos povos com o pragmatismo necessário para lidar com a nova realidade geopolítica imposta pela potência norte-americana.
Durante sua passagem pelo Panamá, o presidente brasileiro resumiu a posição de aguardar os desdobramentos com prudência:
“Eu vou falar com a presidente Delcy, espero que ela consiga dar conta do recado. É importante que o presidente Trump permita que a Venezuela possa cuidar da sua soberania, cuidar dos interesses democráticos da Venezuela, e vamos ver o que vai acontecer. Está tudo muito recente e eu acho que nós temos que ter um pouco de paciência, porque quem vai encontrar uma solução para o povo da Venezuela é o próprio povo venezuelano.” — Lula
Pontos de atenção no cenário atual
Para facilitar a compreensão dos riscos envolvidos, destacam-se os seguintes fatores monitorados pelo governo brasileiro:
- Fluxo Migratório: A possibilidade de aumento repentino de refugiados em Roraima caso a estabilidade política seja rompida.
- Presença Militar: A duração e a intensidade da operação dos Estados Unidos em solo venezuelano.
- Coesão Interna: A capacidade de Delcy Rodríguez em manter o apoio das forças armadas locais e da base política chavista.
- Reação Regional: Como os demais países da América do Sul se posicionarão diante do novo governo interino.
Fonte: https://noticias.uol.com.br/internacional/ultimas-noticias/2026/01/28/lula-venezuela-trump-caos.htm










