A fome empurra o povo iraniano para o confronto aberto com o regime

Manifestações entram no sétimo dia com confrontos, uso de força pelas autoridades e críticas diretas ao regime em meio à crise econômica

Alguns lojistas em Teerã fecharam suas lojas em protesto contra as dificuldades econômicas e as fortes oscilações da moeda iraniana em crise – Foto: Foto por HANDOUT / FARS NEWS AGENCY / AFP

O Irã vive hoje um cenário de extrema incerteza e dor. As mobilizações que começaram no último domingo alcançaram seu sétimo dia no sábado (03/01) com um rastro de violência que preocupa o mundo todo. O que antes era um protesto focado na economia agora se transformou em um movimento político profundo que questiona as bases da própria República Islâmica. Em pelo menos 12 cidades os confrontos entre civis e forças de segurança deixaram marcas que dificilmente serão apagadas.

A situação em Teerã, Shiraz e Mashad demonstra que o cansaço da população atingiu um ponto de ruptura. As imagens que chegam através de redes sociais revelam o uso de gás lacrimogêneo e disparos em plena via pública. Esse cenário não é apenas um reflexo de descontentamento político, mas o grito de um povo que não consegue mais arcar com o custo básico de vida.

A base desse descontentamento reside em números que assustam qualquer mercado financeiro. A inflação anual no Irã já ultrapassa os 42% e os dados de dezembro revelam que a inflação interanual superou os 52%. Esse aumento descontrolado de preços destruiu o poder de compra dos comerciantes e das famílias mais pobres.

O colapso do rial, a moeda local, agravou ainda mais a dependência de produtos importados que ficaram inacessíveis. No início, os protestos foram impulsionados por comerciantes afetados pela crise, mas a pauta rapidamente mudou. Quando o cidadão percebe que o pão e o combustível tornaram-se artigos de luxo, a revolta deixa de ser financeira e passa a ser contra o sistema que permite tal deterioração.

A resposta violenta do regime e o saldo das vítimas

A repressão estatal tem sido severa e os relatos que chegam das províncias são alarmantes. Na cidade de Malekshahi, no oeste do país, os confrontos atingiram um nível crítico. A agência de notícias Fars, ligada à Guarda Revolucionária, descreveu os atos como distúrbios quase terroristas e confirmou que manifestantes armados enfrentaram os agentes.

De acordo com a organização não governamental (Hrana), que monitora os direitos humanos e tem sede nos Estados Unidos (EUA), o balanço da última semana é trágico.

  • Pelo menos 16 pessoas morreram nos confrontos, incluindo um agente de segurança.
  • Cerca de 582 pessoas foram detidas pelas autoridades.
  • Os protestos se espalharam por 60 cidades em 25 províncias diferentes.
  • O uso de força letal tem sido registrado em cidades como Isfahan e Karaj.

O líder supremo Ali Khamenei atribuiu as manifestações a atores estrangeiros e acusou inimigos externos de abusarem dos protestos econômicos para desestabilizar o governo. Essa narrativa é comum em momentos de crise no país, mas parece ignorar a realidade vivida por quem está nas ruas enfrentando o forte aparato policial.

O peso das sanções e o futuro da república islâmica

O isolamento internacional do Irã é um fator determinante para o caos atual. As severas sanções impostas pelos Estados Unidos e pela ONU, devido ao programa nuclear iraniano sufocaram a economia. Embora o governo tente transferir a culpa apenas para fatores externos, a má gestão interna e a corrupção também são alvos frequentes dos gritos dos manifestantes.

O caráter político das mobilizações indica que a população deseja mais do que apenas reformas econômicas. As palavras de ordem contra a liderança do país mostram que existe um desejo de mudança estrutural. Enquanto o regime insistir em tratar o desespero do povo como uma ameaça terrorista, a distância entre o governo e os cidadãos só aumentará.

A comunidade internacional observa com cautela o desenrolar desses eventos. O destino do Irã parece estar em uma encruzilhada perigosa onde a repressão pode até silenciar as ruas temporariamente, mas não resolverá a fome e a falta de perspectiva que alimentam essa revolta.

Fonte: https://jovempan.com.br/noticias/mundo/protestos-no-ira-deixam-mortos-e-se-espalham-por-dezenas-de-cidades.html

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