A Europa está dizendo ‘chega’

Chamado a dizer o que quer, o povo respondeu que quer a direita

Emmanuel Macron, presidente francês (12/6/2024) - Foto: Reuters/Stephane Mahe

Por J. R. Guzzo (*)

“Você não gosta de mim/
Mas a sua filha gosta”
(Chico Buarque)

A canção que foi um emblema da vida inteligente no Brasil durante a ditadura militar, quando os generais mandavam, mas havia compositores com talento musical cinco estrelas, bem que poderia ser adaptada para o mundo de hoje na hora das eleições — pelo menos na Europa e nas democracias onde é permitido votar com liberdade. “Vocês não gostam de mim, mas o povo gosta”, diria a canção desta segunda década do século 21. “Vocês” são a confederação das classes politizadas, do “campo progressista” e de todos os outros apóstolos do chamado “processo civilizatório”. O “mim” seria a direita — no mundo e no Brasil do STF, da mídia pró-Secom e da esquerda em geral. Ninguém, nesse bioma, gosta da direita. Mas maioria dos eleitores está gostando cada vez mais. É o que comprova a surra que a direita acaba de dar na esquerda nas eleições para o Parlamento Europeu. Em 720 votos, levou 402. Nunca houve isso.

A eleição não muda os atuais governos dos países europeus, que são eleitos pelos votos dos cidadãos de cada país, em épocas diferentes — embora possa mudar na França, onde o presidente dissolveu o Parlamento e convocou novas eleições nacionais. Mas não há como negar a evidência óbvia: chamado a dizer o que quer, o povo respondeu que quer a direita. Não só isso. Disse mais claramente do que nunca: “Não gostamos de vocês. Não queremos o que vocês querem. Não vamos mais ficar quietos, olhando os seus governos e partidos nos imporem um mundo que achamos absurdo”. Fica criada, aí, uma charada sem solução visível. A frente mundial da esquerda criou uma Tábua de Dois Mandamentos com valor de versículo do Alcorão. O primeiro é: todos os que não concordaram conosco são de “extrema direita” e, portanto, vivem em estado de pecado mortal. O segundo diz que a “extrema direita” existe para “acabar com a democracia” — e, como a maior parte dos eleitores está gostando dela, o voto popular passa a ser hoje o maior inimigo da “democracia”.

Cartaz anunciando as próximas eleições europeias, colado na fachada do edifício do Parlamento Europeu – Foto: Daniela Baumann/Shutterstock

Como se poderia resolver, então, essa dificuldade? Se o povo ameaça a existência da democracia, porque não aceita mais o que eles querem, fica perigoso pedir que manifeste a sua opinião. O sujeito oculto da frase, na presente indignação da esquerda, é que vai ser preciso, para salvar a “democracia” da ameaça da “extrema direita”, suprimir as eleições. Elas se tornaram um instrumento do mal, como o mal é definido pelo “campo progressista” — são o pé de cabra do fascismo, do racismo, do ódio, da perseguição ao imigrante estrangeiro, da “mudança climática”, de Deus, da pátria e da família. A direita também é ré de “nacionalismo”, que era uma bandeira virtuosa da esquerda — e que hoje está “ressignificado”, como diria Janja, na condição de delito social. É ré de “populismo” — que tem, para a esquerda, o problema irritante de ser cada vez mais popular. Em suma: a maioria não pode mais participar das decisões, porque vota a favor de coisas “erradas”.

Manifestação da esquerda italiana no Piazza Castello para o encerramento dos comícios eleitorais nas eleições para o Parlamento Europeu, em Turim, na Itália (6/6/2024) – Foto: Renato Murolo/Shutterstock

É claro que não se pensa em proibir as eleições no mundo, como se proíbe o jogo do bicho. Para quê? A Rússia tem eleição — na última o presidente Putin levou quase 90% dos votos, e recebeu os parabéns de Lula pela vitória. A Venezuela vai fazer daqui a pouco uma eleição — só com os candidatos aceitos pelo governo. Cuba tem eleição. O Brasil tem o TSE-STF e a sua gendarmeria eleitoral — que agora pretende reforçar com a atuação direta da Presidência da República, através da Advocacia-Geral da União. Basta, pelo menos por enquanto, que as eleições fiquem nesse nível. O problema realmente complicado é fazer eleição à la Venezuela etc. etc. na Europa e nos Estados Unidos. Não há solução coerente, ali, para se ter ao mesmo tempo eleições livres, como se exige numa democracia, e sair delas com o resultado que a esquerda, os intelectuais e a mídia querem. Os magnatas não gostam das “pautas da direita”. Mas o povo gosta. E aí?

É o bolsonarismo chegando à Europa, como observou num Sem Filtro recente o jornalista Silvio Navarro. Quem diria uma coisa dessas, não é mesmo? Eis aí os europeus civilizados se comportando como bolsonaristas primitivos, para efeitos eleitorais de ordem prática. Com uma diferença alarmante, para a esquerda europeia: lá não dá para perseguir a direita. Não existe o TSE, nem o aparelho semilegal de repressão aos candidatos de direita, nem um governo que joga bilhões para fazer propaganda de si próprio. Não dá para proibir o homem político mais popular do país de disputar eleições até o ano de 2030. Não dá para fazer inquéritos policiais perpétuos para perseguir os adversários — nem criminalizar como “golpista” quem teve a má ideia de se reunir para protestos na frente de quartéis do Exército, na suposição de que lá estaria seguro. O resultado são eleições como as que houve agora.

O ministro Luís Roberto Barroso, que preside o STF, poderia dizer que as eleições para o Parlamento Europeu serviram para “mostrar o tamanho do fascismo” na Europa, como já disse em relação aos brasileiros que apoiam Bolsonaro. Mas o fato objetivo é que não há fascismo nenhum, nem no Brasil nem na Europa. O que realmente há, tanto aqui como lá, é uma recusa cada vez mais enérgica da maioria do povo em aceitar a vida que os Barrosos, e os Lulas, e USPs, e ONGs, e ONUs, e Macrons, e Soros, e Verdes, e o resto da constelação “progressista” querem impor a todos. Bate isso aí tudo num liquidificador, soma com o que existe de parecido, e vai sair um suco concentrado do que a esquerda mais gosta e o homem comum mais detesta. Eles querem um mundo governado por comissários (na Europa eles são chamados assim mesmo, “comissários”) que sabem muito mais que “a multidão” o que é melhor para as pessoas — e, portanto, têm o direito de decidir como todas elas devem viver. O povo não quer que seja assim.

Ministro Luís Roberto Barroso, presidente do Supremo Tribunal Federal – Foto: Ronaldo Silva/Shutterstock

Na Europa, basicamente, a maior parte dos que foram votar na eleição para o Parlamento deixou claro que estão cansados de aceitar o que lhes parece o disparate serial de decisões impostas a todos por burocratas que não foram eleitos e nunca perguntam a sua opinião sobre nada. Recusam cada vez mais, por exemplo, a obrigação de conviverem com estrangeiros que entram ilegalmente em seu país e cinco minutos depois de cruzar a divisa já estão exigindo direitos — sobretudo o de serem sustentados com dinheiro público. A esquerda, a elite e o “centro equilibrado” chamam essa nova classe de “imigrantes”, ou de “refugiados”. A maioria da população acha que eles não são uma coisa nem outra. São condenados à miséria perpétua no Terceiro Mundo, e invadem a Europa conduzidos em grande parte por traficantes de pessoas — não em busca de trabalho, e sim das verbas que os governos europeus pagam para eles e da proteção de suas ONGs.

Milhões de europeus consideram que isso é errado — e mostram sinais de exaustão por manifestarem uma opinião legítima e serem logo acusados pela mídia e pelo “campo progressista” de racistas, xenófobos, fascistas, extremistas de direita, cultores do ódio, preconceito e outros delitos sociais. Não se veem como nada disso. Acham, apenas, que têm o direito de querer leis de imigração racionais e que sejam cumpridas, como costumavam ter antes do “globalismo” e da ideia geral de que fronteiras entre as nações são coisa da extrema direita, do populismo e da “exclusão social”. Não querem se sentir estrangeiros em seu próprio país. Não querem ver os índices do crime violento subirem na exata proporção do número de estrangeiros que não trabalham. Não querem, depois de cem anos de esforço para erradicar a miséria de sua sociedade, importar miséria das ditaduras da África e outros cantos.

Manifestação anti-imigração em massa, em Ljubljana, na Eslovênia (7/6/2024) – Foto: Reuters/Borut Zivulovic

As pessoas não estão descontentes com a maioria dos governos de hoje porque são fascistas. Estão zangadas, isso sim, porque têm cada vez menos paciência com as obrigações e com as proibições que seus governantes lhes impõem — principalmente quando quem dá as ordens é uma nuvem de magnatas sem rosto, sem responsabilidade e sem voto que ficam conversando entre si em Davos, nos comitês internacionais e em outros hábitats do pensamento politicamente correto. Não entendem por que a defensa dos seus próprios valores, sua cultura e seus símbolos nacionais é denunciada como atitude extremista. Não entendem por que sua religião está sob suspeita permanente de ser antidemocrática, mas ninguém pode fazer nenhuma crítica ao islamismo. Não entendem como terroristas do Hamas possam desfrutar de imunidade nos bairros de população árabe na Europa. Não entendem quando lhes dizem que as vacas estão colocando em risco a sobrevivência do planeta — ou por que é proibido dizer que os homens não podem engravidar.

A lista vai longe e, obviamente, inclui insatisfações com a inflação, as precariedades de uma economia em constante transformação e a descrença em governos que não sabem responder aos anseios da maioria. Acima de tudo, cresce a sensação de que os governos e o combo que vem com eles são cada vez mais incapazes de lidar com o universo das realidades. Pensam no degelo do Polo Norte, em fixar na lei um limite sobre quanto dinheiro o cidadão pode ter, na crise das abelhas. Estão preocupados com a sua cota pessoal de carbono, o excesso na produção de alimentos e a necessidade de livrar as crianças de preconceitos sobre sua identidade biológica. Acham indispensável escolher o que você tem de comer, quanto pode consumir, aonde pode ir, o que tem de pensar, em quem deve votar. Querem fazer as pessoas acreditarem que o principal perigo de sua vida é a “extrema direita” — ou tudo o que definem como “iliberal”.

Foi o enjoo quanto a isso tudo que levou aos resultados das eleições na Europa. Na França, o presidente Emmanuel Macron, símbolo mais citado do progressismo civilizatório mundial e de tudo o que está exposto acima, teve metade dos votos da demônia-chefe da direita francesa — Marine Le Pen, que a esquerda considera há mais de 20 anos a maior ameaça para a sobrevivência do país. A direita avançou na Alemanha, na Espanha e na Holanda. Na Bélgica, como na França, o resultado fez o chefe de governo convocar novas eleições. Na Itália, a nova demônia Giorgia Meloni, que a esquerda considera a “herdeira de Mussolini”, teve votação maior do que a que recebeu nas eleições que a levaram ao governo. Que fazer, agora? Se fosse no Brasil, o presidente Lula diria que tudo é apenas “problema de comunicação” — e socaria sabe lá Deus quantos bilhões a mais em propaganda, emendas parlamentares e leilões de arroz com embalagem pró-governo. Lá, e em breve nos Estados Unidos, essas facilidades não estão disponíveis para a esquerda. O problema não é o “fascismo”. É o que o povo gosta.

Marine Le Pen, do Rassemblement National, em discurso aos membros do partido após o encerramento das eleições para o Parlamento Europeu, em Paris, na França (9/6/2024) – Foto: Reuters/Sarah Meyssonnier

(*) J.R. Guzzo é jornalista. Integrante do Conselho Editorial de Oeste, foi um dos criadores da Veja, revista que dirigiu durante quinze anos, a partir de 1976, período em que sua circulação passou de 175.000 para 1 milhão de exemplares semanais. Correspondente em Paris e Nova York, cobriu a guerra do Vietnã e esteve na visita do presidente Richard Nixon à China, em 1972. Responsável pela criação da revista Exame, atualmente escreve no Estado de S. Paulo e na Gazeta do Povo.

Fonte: https://revistaoeste.com/revista/edicao-221/a-europa-esta-dizendo-chega/

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