A cidade que atropela periquitos, empurra prazos e arquiva escândalos

Nova matança de periquitos na avenida Ephigênio Salles

Na sexta-feira passada, Manaus não atropelou apenas duzentos periquitos na Ephigênio Salles. Atropelou o óbvio. Atropelou a lei. Atropelou qualquer resquício de convivência com a natureza que ainda insistia em resistir naquela avenida.

Não foi acidente. Foi descaso reincidente. Há placas, há histórico, há avisos — falta freio, falta empatia e sobra arrogância motorizada. Os pássaros estavam ali antes do asfalto, antes da indiferença. Mas na hierarquia urbana, quem voa baixo não tem vez.

O mais cruel não é a morte. É saber que isso acontece “todo ano” e nada muda. A cidade aprende a conviver com o silêncio depois do massacre. E segue em frente, como se a culpa fosse das asas.

Parque Encontro das Águas

Promessa é coisa séria, principalmente quando vem com prazo flexível. O Parque Encontro das Águas, anunciado para virar cartão-postal, resolveu antes virar novela das nove. Com estreia prevista para 2024, a trama agora ganhou novo capítulo: final somente em junho de 2026. O atraso já passa de 660 dias.

A prefeitura garante que “ganhou corpo”. E ganhou mesmo: fundação profunda, estacas, discurso sólido e um cronograma que se reinventa a cada ano.

Enquanto isso, os R$ 80 milhões investidos seguem fazendo turismo no papel. Manaus continua esperando o parque e se consolando com a vista do canteiro.

Obra em câmera lenta

O prefeito David Almeida diz que a obra do Parque Encontro das Águas está em “ritmo acelerado”. Só não explicou se o relógio usado é o da engenharia ou o da política.

Imagens aéreas mostram um parque ainda longe de ser parque e bem perto de ser símbolo: símbolo de como grandes projetos públicos adoram prometer legado mas só seguem agenda de conveniência politiqueira.

Com novo empréstimo em discussão e setores básicos pedindo socorro, o Parque virou encontro de narrativas. De um lado, otimismo institucional. Do outro, concreto que não acompanha o discurso. Até lá, Manaus segue contemplando o futuro — atrasado.

Processo arquivado, conforto seguro

Foto: Divulgação

O CNMP caminha para arquivar o PAD contra o promotor que comparou uma advogada a uma cadela em pleno Tribunal do Júri. Não por inocência, não por equívoco, mas por um detalhe técnico elegante: ele se aposentou a tempo.

O recado institucional é cristalino — ofensa é grave, mas aposentadoria é mais forte. O mérito não será julgado. A agressão verbal não será enfrentada. Arquiva-se o processo para preservar a forma, mesmo que o conteúdo seja indigesto.

No fim, fica a lição silenciosa: no Brasil, às vezes, não importa o que foi dito, nem onde foi dito, nem contra quem foi dito. Importa apenas se ainda dá tempo de punir. Quando não dá, arquiva-se. E segue o jogo — sem apito, sem constrangimento, sem justiça.

Mundo andando para trás

O mundo chega a 2026 com o discurso climático cada vez mais sofisticado e a prática cada vez mais pobre.

Enquanto secas, ondas de calor e eventos extremos se intensificam, a política ambiental global sofre um visível retrocesso. Falta liderança, sobra nacionalismo e a cooperação internacional, já frágil, virou quase peça de museu.

Dados recentes reforçam esse descompasso: segundo a ONU, os países estão longe de cumprir os compromissos do Acordo de Paris e, mantidas as políticas atuais, o planeta caminha para um aquecimento acima de 2,5 °C neste século.

Ao mesmo tempo, subsídios aos combustíveis fósseis bateram recorde global após a crise energética, ultrapassando US$ 1 trilhão em 2023, segundo o FMI.

“Rebranding” dos fósseis

Foto: Divulgação

O artigo do secretário-geral da Opep defendendo um “rebranding” dos combustíveis fósseis não é um detalhe retórico — é um sintoma. Em vez de transição, maquilagem. Em vez de ruptura, conveniência. A emergência climática virou refém de calendários eleitorais, guerras geopolíticas e interesses imediatos.

Como alerta o professor Eduardo Viola, sem liderança global e com cooperação mínima, o mundo avança para a década decisiva escolhendo adiar decisões. E a conta, como sempre, será paga no clima — e na vida real.

Criptomoedas contra o crime

Foto: Divulgação

O combate ao crime organizado ganhou um novo front: o universo cripto. A ideia de anonimato, aliada à velocidade das transações e à fragilidade regulatória, transformou os criptoativos em ferramenta atraente para lavagem de dinheiro, hackers, facções e fraudadores de toda espécie.

Os números mostram a dimensão do problema. Estimativas da Chainalysis apontam que pelo menos US$ 15 bilhões em criptoativos estão diretamente ligados a atividades criminosas, além de dezenas de bilhões circulando em redes suspeitas.

No Brasil, a Polícia Federal já apreendeu mais de R$ 4 bilhões em ativos digitais — um sinal de que o problema deixou de ser teórico.

Regulação empacada

A boa notícia é que o mito do anonimato absoluto não se sustenta. A blockchain registra tudo. O gargalo está na identificação dos donos e na integração entre corretoras, Banco Central, Receita e Judiciário.

É aí que entram a regulação do BC e ferramentas como o CriptoJud, ainda em fase de testes, mas essenciais para impedir que o crime use a inovação financeira como esconderijo.

Sem regulação firme, tecnologia vira refúgio. Com regulação, vira prova. O desafio agora não é técnico — é político e institucional. Porque, assim como na crise climática, no combate ao crime organizado o atraso cobra juros altos.

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