
O Codex Gigas ou “Livro Gigante” reúne livros do Antigo e Novo Testamento da Bíblia católica, mas também cinco longos textos históricos em latim. O manuscrito começa no Antigo Testamento, seguido por dois trabalhos do historiador judaico-romano Flávio Josefo do século 1: “Antiguidades Judaicas” e “A Guerra dos Judeus“. Depois, há uma popular enciclopédia medieval escrita por Isidoro, que viveu no século 6 na Espanha, e uma coleção de textos médicos. O Novo Testamento antecede o último texto pagão, a “Crônica dos Boêmios” escrita por Cosme de Praga entre 1045 e 1125.

Há ainda alguns textos curtos que contribuíram para a sua reputação; um deles —situado logo após um famoso retrato do demônio— ensina a exorcizar espíritos maléficos. Outro texto reflete sobre penitência e acompanha um desenho da Jerusalém celestial, além do “Calendário“, que contém uma lista de santos e ilustres boêmios nos dias em que eram celebrados.
Um texto perdido do Codex intriga cientistas até hoje: a Regra de São Bento, um famoso guia de vida monástica escrita pelo santo exorcista no século 6. Segundo um artigo da UCSB (Universidade da Califórnia em Santa Bárbara), suas páginas teriam sido cortadas do Codex.

Ele ainda possui “receitas” de feitiços e fórmulas mágicas. Poções para curar doenças e rituais para capturar ladrões, informações sobre exorcismos e uma lista dos irmãos falecidos do mosteiro de Podlazice também fazem parte. Confissões de pecados foram inclusas junto a outras anotações por seus leitores posteriores, segundo o Discovery Channel. No entanto, foi o demônio desenhado, de quase 50 cm de altura, que sedimentou sua fama de amaldiçoado.
Sua origem é incerta, mas os últimos registros no Codex são de 1222, o que sugere que o livro tenha sido escrito em peles de 160 burros e bezerros ainda no século 13. Uma anotação em sua primeira página coloca o mosteiro beneditino de Podlazice como seu primeiro proprietário.
Lenda

A lenda popular diz que o Codex teria sido escrito por um monge que fez pacto com o demônio para redigir a Bíblia até o fim. Diante da possibilidade de ser emparedado vivo por desrespeitar seus votos monásticos, o monge teria prometido criar um livro que contivesse todo o conhecimento humano em apenas uma noite, relatou uma reportagem do Discovery Channel no Reino Unido em abril. Ao perceber que não conseguiria cumprir a penitência no prazo, ele teria pedido a assistência de Lúcifer, que o ajudou a finalizar o livro — e levou à “homenagem ilustrada“.
O mito pode ter surgido para expressar o fascínio da população com o seu tamanho. São 620 páginas de 89 cm de altura e pouco mais de 48 cm de largura, pesando um total de 74,8 kg. Ricamente detalhado com exterior em madeira e metal, sua realização deveria ter parecido algo realmente sobrenatural ao homem medieval, acreditam estudiosos.

Historiadores descartam a lenda, mas reconhecem que o Codex possa ter apenas um autor. Especialistas no manuscrito ouvidos para um documentário da National Geographic de 2011 apontaram que a análise da grafia à mão e um crédito no Codex a “Herman, o Recluso” podem confirmar a teoria. Pesquisas do paleógrafo Michael Gullick também indicam que apenas um tipo de tinta foi usada na grafia uniforme, feita com ninhos prensados de insetos. No entanto, lexicologistas acreditam que a empreitada tenha levado de 20 a 30 anos, segundo a UCSB.
A Bíblia e seus anexos circularam de mosteiro em mosteiro pela atual República Tcheca até que, em 1594, chegaram à coleção pessoal do imperador Rodolfo II, do Sacro-Império Romano-Germânico. Uma de suas paradas foi na abadia cisterciense de Sedlec, para o qual ele teria sido penhorado, apesar de ter passado a maioria de seu tempo mesmo entre os beneditinos.

Durante a Guerra dos Trinta Anos (1618-1648), o Codex Gigas foi tirado de Praga junto aos tesouros imperiais e levado pelo exército sueco para a coleção da rainha Cristina em Estocolmo. Ele permaneceu na biblioteca real até 1877, quando foi transferido para o acervo da nova Biblioteca Nacional da Suécia, onde está até hoje.
A “maldição” da Bíblia do Diabo ainda fez uma vítima enquanto ela estava no acervo real sueco. Durante um incêndio no antigo Castelo das Coroas, em Estocolmo, em maio de 1697, o Codex Gigas foi salvo depois que alguém o jogou pela janela da Biblioteca em chamas — mas ferindo uma pessoa que passava pelo local, segundo relato do vigário Johann Erichsons.

O Codex só voltou a Praga uma vez em 350 anos, durante um empréstimo em 2008, mas retornou para a Biblioteca Nacional em Estocolmo em 2009. No entanto, ele não pode ser manuseado pelo público, mas visto através de um vidro na sala com clima controlado onde é mantido para a sua preservação. Visitantes também podem estudar a versão digitalizada do manuscrito, assim como comentários de sua história, textos e decoração.











