
Por Marcos Maurício Costa (*)
Serei breve – até porque estou de férias com a família – e deixarei para um outro momento a elaboração de um texto mais aprofundado sobre as matérias veiculadas, ao longo desta semana, por grandes grupos de comunicação aqui do Sudeste, como a Folha de S. Paulo e O Globo — com repercussão em portais locais como o Brasil Norte Comunicação (BNC ) —, de que um estudo científico “indica que a abertura da rodovia pode colocar a população em contato com linhagens isoladas de vírus e bactérias com potencial patogênico ainda pouco conhecido.”
Antes de avançar, já deixo registrado o meu pedido de desculpas a minha filha adolescente, que me fez o seguinte questionamento: “Pai, por que mesmo nas férias o senhor não para de escrever?”.
Respondi:”Minha filha, não posso deixar de sair em defesa do nosso Estado, e nem permitir que limitem ou tirem as perspectivas de futuro da sua geração.” Meio contrariada, ela compreendeu.
Sigamos, então.
A hipótese de que a repavimentação do Trecho do Meio da BR-319, de 405 quilômetros, pode colocar a população em contato com linhagens isoladas de vírus e bactérias com potencial patogênico ainda pouco conhecido e causar uma tragédia biológica deve ser colocada imediatamente sob rasura.
Convém relembrar que a construção da verdade atende a uma vontade de poder, já nos ensinava Michael Foucault.
E é utilizando as ferramentas da análise do discurso, com a lente das Ciências Sociais Aplicadas, que trarei alguns fatos para a reflexão de todos.
Não se trata aqui de apontar eventuais imprecisões no percurso metodológico da pesquisa citada e nem de refutar os resultados preliminares que foram divulgados pela mídia do sudeste, mas sim, repito, convidar a uma reflexão.
Nesse sentido, destaco que segundo o eng.civ. Orlando Holanda, a rodovia BR-319 (Manaus-Porto Velho) foi aberta ao tráfego interestadual no final de 1972, quando duas frentes de obras se encontraram; uma seguindo de Humaitá-AM até o rio Matupiri, e outra do rio Tupãna até o mesmo ponto.
Frisa-se que a supressão da camada vegetal de floresta primária ocorreu quando houve a construção da rodovia, iniciada em 1968 e oficialmente inaugurada em 27 de março de 1976, totalmente asfaltada nos seus 885 quilômetros.
Mesmo considerando a restrição ao tráfego interestadual imposta a partir do final de 1988, a reabertura em 2015 e admitindo a supressão parcial de floresta secundária, não se teve, no passado, evidências de que essas ações humanas tivessem colocado a população em contato com novas linhagens de vírus e bactérias com potencial patogênico pouco conhecido.
Com efeito, a pesquisa divulgada por alguns grupos de comunicação aqui do Sudeste serve para mostrar, novamente, a importância do Estudo de Impacto Ambiental (EIA) do Trecho do Meio da BR-319 (Kms 250,7 ao 656,4), como, a título de exemplificação, dos Programas Ambientais que serão executados a fim de prevenir, mitigar e compensar impactos ambientais negativos, inclusive no que diz respeito ao aumento na incidência e no controle de doenças (meio biótico).
Por fim, é preciso reforçar que a rodovia BR-319 está aberta ao tráfego interestadual, mesmo com as condições precárias do segmento central, e continua sendo um vetor de mobilidade da população.
- Conclusão: precisamos avançar com as tratativas voltadas para a repavimentação do Trecho do Meio da rodovia BR-319 e, via de consequência, implantar o quanto antes os programas ambientais listados no EIA. E não ao contrário, como concluiu a pesquisa divulgada.

(*) Professor universitário (FD/UFAM), engenheiro civil e advogado








