
A transferência do ex-presidente Jair Bolsonaro para o 19º Batalhão da Polícia Militar do Distrito Federal (PMDF), confirmada nesta quinta-feira (15/1), marca um novo capítulo no cumprimento de sua pena. A decisão do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), atende a requisitos técnicos, mas também carrega um forte simbolismo político ao retirar o ex-mandatário da Superintendência da Polícia Federal (PF) e alocá-lo em um espaço com condições significativamente superiores, conhecido popularmente como “Papudinha”.
Embora a narrativa de perseguição política seja frequentemente evocada por aliados, os detalhes da nova instalação revelam um tratamento que dista anos-luz da realidade carcerária brasileira comum. A mudança não é apenas geográfica, mas representa um salto na qualidade de vida do custodiado, que agora ocupa uma “Sala de Estado-Maior” com estrutura de apartamento funcional.
De 12 para 65 metros quadrados: o abismo entre as celas
A comparação entre o local anterior e o atual, anexada à decisão de Moraes, é o ponto central para entender a magnitude dessa mudança. Bolsonaro deixa um cubículo de 12 m², onde o banho de sol era improvisado e o isolamento era severo, para habitar um complexo de aproximadamente 65 m².
Nesta nova etapa, a privação de liberdade ganha contornos muito mais brandos. O espaço dispõe não apenas de quarto e banheiro privativos, mas também de sala, cozinha, lavanderia e uma área externa exclusiva de 10 m². A substituição do frigobar por uma geladeira convencional e a possibilidade de instalação de equipamentos de ginástica, como esteira e bicicleta, indicam uma rotina voltada para a manutenção da saúde física e mental do ex-presidente.
As melhorias na rotina incluem:
- Alimentação ampliada: A oferta passa de três para cinco refeições diárias, incluindo lanche e ceia.
- Saúde integral: O local conta com um posto de saúde equipado com médicos, enfermeiros, dentistas, psicólogos e fisioterapeutas, além de atendimento de emergência 24 horas.
- Convívio familiar: As visitas, antes restritas e curtas, agora podem durar até duas horas, com permissão para entrada simultânea de familiares na própria área privativa da cela.
A articulação política e o horizonte da prisão domiciliar
A transferência ocorre em meio a uma intensa movimentação de bastidores. A ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro e o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, têm atuado diretamente junto a ministros da corte, como Gilmar Mendes, buscando caminhos para uma eventual prisão domiciliar.
A decisão de Moraes de solicitar uma nova perícia médica sugere que a porta para a progressão ao regime domiciliar não está totalmente fechada, embora a “Papudinha” já ofereça toda a estrutura necessária para os cuidados de saúde alegados pela defesa. É notável que o ex-presidente ficará separado de outros nomes ligados à tentativa de golpe, como Anderson Torres e Silvinei Vasques, mantendo o isolamento político dentro da unidade.
No fim das contas, a ida para a “Papudinha” funciona como um meio-termo estratégico. Garante-se a dignidade e a saúde do ex-chefe do Executivo, esvaziando discursos sobre maus-tratos, ao mesmo tempo em que se mantém o cumprimento rigoroso da pena em regime fechado, reafirmando a autoridade das decisões judiciais sobre os atos antidemocráticos.











