
Encontrar Madeleine Hausser e Béatrice Kruch no sudoeste do Tocantins é como folhear um livro vivo da história brasileira. Conhecidas como Mada e Bia, essas duas religiosas francesas desembarcaram no país em 1967, em pleno regime militar, trazendo na bagagem o compromisso da Teologia da Libertação. Hoje, prestes a completar seis décadas de missão em solo nacional, elas permanecem como sentinelas em defesa dos camponeses e da natureza, observando de perto as transformações drásticas que o agronegócio impôs ao bioma e às comunidades locais.
A trajetória da dupla não é apenas um relato de fé, mas um exemplo de resistência política e social. Elas caminharam ao lado de gigantes como Dom Pedro Casaldáliga e testemunharam o sacrifício do Padre Josimo Tavares, o “padre negro de sandálias surradas”, assassinado por defender o direito à terra. Mesmo após tantos anos, a voz dessas mulheres não perdeu o vigor diante das novas ameaças que cercam os assentamentos rurais, como o uso indiscriminado de agrotóxicos e o esgotamento dos recursos hídricos.
O legado histórico e a luta contra os impactos do agronegócio
A história de Mada e Bia ganhou ainda mais relevância com o lançamento do documentário sobre suas vidas em 2024, que jogou luz sobre as décadas de atuação no Bico do Papagaio e no Araguaia. Agora, em 2026, elas enfrentam o desafio de manter viva a organização social em um cenário dominado pela monocultura e pela desinformação. O trabalho que realizam no assentamento Lagoa da Onça, em Formoso do Araguaia, revela as cicatrizes de um modelo econômico que muitas vezes prioriza o lucro em detrimento da saúde humana.
Para compreender melhor a dimensão dessa jornada e os fatos que marcam a atuação das missionárias, selecionamos os pontos centrais que definem essa luta histórica.
- A chegada ao Brasil ocorreu em dezembro de 1967 com o objetivo de aplicar os conceitos de justiça social em comunidades vulneráveis.
- Elas receberam formação em enfermagem e serviço social em Goiás para melhor atender os posseiros e indígenas.
- Durante a ditadura, atuaram na prelazia de São Félix do Araguaia sob a liderança profética de Dom Pedro Casaldáliga.
- No Bico do Papagaio, ajudaram na fundação de sindicatos e comunidades eclesiais de base em um período de extrema violência no campo.
- Atualmente denunciam a contaminação por agrotóxicos provenientes de grandes projetos de arroz irrigado que afetam a saúde dos assentados.
- O documentário “Mada e Bia” lançado há dois anos serve como um registro fundamental para as novas gerações de defensores dos direitos humanos.
Ecologia integral e o futuro da casa comum
A visão de mundo das irmãs se renovou com o conceito de ecologia integral proposto pelo papa Francisco. Elas compreendem que não existe separação entre o cuidado com a terra e o cuidado com as pessoas. Em um tempo de calor extremo e rios secando, como observamos neste início de 2026, o questionamento de Mada sobre a destruição da natureza se torna um grito de alerta urgente. Para elas, a oração deve ser acompanhada da ação direta, seja por meio de abaixo assinados para garantir serviços básicos ou no enfrentamento ideológico contra o avanço da “cultura do veneno”.
Apesar das mudanças na estrutura da Igreja Católica e da diminuição do espaço para a Teologia da Libertação nas últimas décadas, Bia e Mada não recuam. Elas acreditam que a semente da justiça social foi plantada e que, mesmo diante de todas as adversidades, o povo lavrador continuará resistindo. A persistência dessas duas mulheres é a prova de que a idade não é um obstáculo quando o propósito é maior que as dificuldades impostas pelo tempo ou pelo poder econômico.
Que a história de Bia e Mada sirva de inspiração para todos os associados, colaboradores e para a sociedade em geral, lembrando que a defesa da vida e da dignidade humana é uma tarefa constante que exige coragem e, acima de tudo, amor ao próximo.











