
A decisão do Ministério da Justiça de encaminhar à Polícia Federal (PF) um pedido de investigação contra o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) traz à tona um debate essencial sobre a responsabilidade das autoridades em seus discursos públicos. O movimento institucional aconteceu nesta segunda-feira, dia 12 de janeiro, sendo um dos últimos atos de Ricardo Lewandowski antes de sua exoneração da pasta. A solicitação partiu da deputada federal Dandara Tonantzin (PT-MG), que questiona o uso da visibilidade parlamentar para associar adversários políticos a crimes graves sem a devida comprovação judicial.
O caso ganha relevância por testar os limites da imunidade parlamentar em um ambiente digital cada vez mais polarizado. Quando um representante eleito utiliza canais oficiais para disparar acusações de natureza criminal contra o chefe do Executivo ou organizações internacionais, ele tensiona o equilíbrio entre a liberdade de expressão e o dever de zelar pela verdade. A análise técnica da polícia agora será fundamental para determinar se as falas configuram o exercício do mandato ou se ultrapassaram a barreira da legalidade.
As afirmações de Flávio Bolsonaro sobre a Venezuela e o governo
O centro da polêmica reside em um vídeo publicado pelo senador, no qual ele comenta a situação política da Venezuela e critica de forma contundente a postura do governo brasileiro. Em sua manifestação, Flávio celebrou o que descreveu como um processo de libertação e direcionou ataques diretos ao presidente. “No dia de hoje, o presidente Donald Trump começou a levar paz à Venezuela”, afirmou o parlamentar ao mencionar que haveria esperança de retorno a um país livre e democrático.
Em outro trecho, o senador utilizou comparações históricas para atingir o governo federal. Ele declarou que “Lula e os petistas insistem com a narrativa de defesa da soberania da Venezuela” e comparou essa postura à defesa da “soberania da Alemanha nazista quando os norte-americanos aliados derrubaram Adolf Hitler”. Além disso, Flávio afirmou que “começa a cair hoje o “Foro de São Paulo”, uma organização criminosa fundada por Lula e Fidel Castro em 1990”. O parlamentar ainda sugeriu que uma eventual delação de Maduro poderia expor esquemas de tráfico internacional de drogas, armas e financiamento de grupos narcoterroristas, afirmando que Lula envergonha o povo brasileiro ao se posicionar a favor do regime vizinho.
A posição de Dandara Tonantzin e os fundamentos da investigação
A deputada Dandara Tonantzin fundamentou sua requisição na necessidade de combater a desinformação e proteger a honra das instituições. Para a parlamentar, as declarações do senador não possuem o amparo do debate político saudável e buscam apenas criminalizar adversários por meio de narrativas sem lastro probatório.
Os detalhes da solicitação encaminhada para a apreciação da PF incluem os pontos destacados abaixo.
- A deputada sustenta que o senador teria cometido crimes de calúnia, difamação e injúria ao relacionar diretamente o presidente Lula e o Foro de São Paulo a atividades de narcotráfico e lavagem de dinheiro.
- O documento defende que a imunidade parlamentar não deve ser aplicada neste contexto, pois o conteúdo da publicação não guardaria relação direta com as funções legislativas exercidas em Brasília.
- Há um pedido específico para que a Polícia Federal atue na preservação de provas digitais, garantindo que o material postado não seja removido antes da análise pericial.
- Em suas redes sociais, Dandara reforçou que a democracia exige liberdade de expressão, mas acompanhada de responsabilidade e respeito às instituições.
A transição no Ministério da Justiça e os próximos passos
O trâmite administrativo do pedido reflete a continuidade dos trabalhos ministeriais mesmo em momentos de troca de comando. O ofício foi assinado por Eliza Pimentel da Costa Simões, coordenadora geral de Administração do gabinete do ministro, e seguiu para o gabinete do diretor geral da PF, Andrei Rodrigues. O ato ocorreu no encerramento da gestão de Ricardo Lewandowski, que deixou a função alegando razões pessoais e familiares em carta entregue ao presidente.
Atualmente, o Ministério da Justiça é conduzido interinamente pelo secretário executivo Manoel Carlos de Almeida Neto, enquanto o governo avalia o perfil do novo titular definitivo. A investigação agora entra em uma fase de avaliação técnica, onde a polícia deve decidir se há elementos suficientes para a abertura de um inquérito formal. O desfecho será um marco importante para definir como a justiça brasileira tratará acusações de alto impacto proferidas por membros do Congresso Nacional no ambiente virtual.











