Crise na fronteira da Venezuela sobrecarrega único hospital de alta complexidade em Cúcuta

A cidade de Cúcuta, na Colômbia, vive hoje um dos momentos de maior pressão em seu sistema público de saúde. O hospital Erasmo Meoz, única unidade com capacidade para atender casos de alta complexidade no departamento de Norte de Santander, entrou oficialmente em alerta amarelo. O motivo é o fluxo constante de migrantes e familiares que se aglomeram na fronteira à espera de notícias sobre a libertação de presos políticos, um movimento que ganhou força após os recentes desdobramentos políticos em Caracas, incluindo a captura de Nicolás Maduro.

Historicamente, Cúcuta funciona como a principal porta de entrada para quem foge da crise venezuelana. No entanto, o cenário atual transformou a metrópole de 800 mil habitantes em um acampamento de esperança e dor. Famílias inteiras aguardam na ponte Simón Bolívar, enfrentando condições precárias que acabam desaguando nas portas do Erasmo Meoz, o grande símbolo da resistência e do esgotamento dos serviços públicos colombianos na região.

A realidade brutal do hospital e o limite da capacidade física

O Erasmo Meoz possui uma classificação de grau três, o que significa que ele é o centro de referência máximo para casos graves. Essa especialização é fundamental no contexto atual, pois o hospital recebe pacientes com quadros severos de desnutrição ou sobreviventes que apresentam marcas físicas e psicológicas de tortura sofridas em prisões do país vizinho. Outros hospitais da área, como o Francisco de Paula, possuem apenas o nível dois, limitando-se a atendimentos básicos e cirurgias gerais, o que obriga o encaminhamento de quase todos os refugiados para uma única estrutura.

A situação do atendimento de urgência é alarmante e reflete o tamanho do desafio humanitário:

  • O serviço de emergência opera atualmente com 300% de sua capacidade instalada.
  • Muitos pacientes aguardam atendimento em macas espalhadas pelos corredores devido à falta de quartos.
  • Cerca de 30% dos 380 leitos do hospital estão ocupados exclusivamente por migrantes venezuelanos.
  • No setor de obstetrícia, metade das mulheres grávidas atendidas atravessou a fronteira em busca de assistência.

Esses números mostram que a infraestrutura local não foi projetada para absorver uma demanda flutuante tão alta. Enquanto em 2015 o hospital atendia cerca de duas mil pessoas vindas da Venezuela, esse volume saltou para dezenas de milhares nos últimos anos, sem que houvesse um investimento proporcional por parte do governo central ou ajuda internacional suficiente.

O reflexo da queda do regime e a busca por justiça na saúde pública

A recente instabilidade no comando da Venezuela gerou uma onda de expectativa que impacta diretamente a logística de Cúcuta. Com a prisão de figuras centrais do antigo regime, o número de familiares que buscam informações sobre detentos políticos aumentou drasticamente. Esses cidadãos chegam à fronteira exaustos e muitas vezes doentes, precisando de suporte imediato que o Erasmo Meoz luta para oferecer.

Além disso, a proposta política do presidente Gustavo Petro sobre a criação de uma confederação de nações, a chamada “Grande Colômbia”, traz um componente extra de incerteza sobre como será a gestão compartilhada de fronteiras e serviços de saúde no futuro próximo. Por enquanto, o alerta amarelo permanece como uma medida preventiva, mas a administração do hospital admite que qualquer nova oscilação na ponte Simón Bolívar pode levar o sistema ao colapso total.

A crise em Cúcuta não é apenas uma questão de falta de leitos, mas um retrato da urgência de políticas migratórias integradas. Quando um único hospital se torna o refúgio para milhares de sobreviventes de um regime em ruínas, a saúde deixa de ser apenas uma questão médica e passa a ser o último baluarte dos direitos humanos em uma zona de fronteira esquecida.

Fonte: https://pt.euronews.com/2026/01/12/principal-hospital-da-cidade-colombiana-de-cucuta-triplica-de-capacidade-devido-a-crise-na

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