
Por Juca Taketomi
Era sábado de novembro da década de 80. Um sábado sagrado, daqueles em que o Zé das Centúrias aparecia aqui em casa como um apóstolo fora de catálogo, carregando seu bornal de contradições e um humor que o Vaticano certamente não canonizaria.
Chegou como sempre, de chapéu amassado e olhar ferino. — Trouxe café ou blasfêmia hoje, Zé? — perguntei. — As duas coisas. Café pra acordar o corpo, blasfêmia pra acordar o espírito, respondeu, irreverente, sem cerimônia.
Sentou-se debaixo da mangueira, acendeu um cigarro e disparou logo:
— Li um livro danado em que o autor diz exatamente o que eu penso sobre esse negócio de religiões. O livro é um raio descendo do alto pra incendiar dogmas.
Deu uma tragada e prosseguiu: — É impressionante. Jesus veio para libertar a humanidade, e as religiões conseguiram transformá-lo em diretor espiritual de um sistema penitenciário.
— Penitenciário? — perguntei. — Claro! Vê se não é: para cada pecado, uma pena. Para cada arrependimento, uma taxa. Para cada culpa, uma assinatura no livro de presença celestial. Trocaram o Cristo vivo, cósmico, universal, pelo Cristo burocrata, preso em templos e horários. Uma sacanagem.
Deu outra tragada e apontou o cigarro para mim, como quem faz sermão ao contrário. — Jesus veio ensinar o amor incondicional, e eles criaram o amor condicionado: “Ame, mas só quem for do nosso rebanho”. Veio ensinar que o Reino de Deus está dentro de nós, e eles construíram condomínios de luxo para o Reino do Céu — com entrada exclusiva para quem paga o dízimo.
Riu alto, sarcástico. — O Cristo veio quebrar o jugo dos sacerdotes, e os sacerdotes correram para fundar o Sindicato dos Intérpretes de Deus. E o povo, coitado, ainda acha que precisa de senha para falar com o Altíssimo.
Tentei defender, timidamente: — Mas, Zé, há muita gente boa nas religiões.
— Claro que há — interrompeu ele —, e é por isso mesmo que as religiões ainda não desabaram de vergonha. Sabe de uma coisa, os bons permanecem apesar das religiões, não por causa delas.
Deu um gole no café e continuou o sermão invertido: — O problema é que elas ficaram presas ao tempo. Jesus trouxe a revelação espiritual, o próximo passo era a revelação cósmica. Mas as religiões trancaram o Universo dentro de um altar. Dizem “Pai Nosso que estais no céu”, mas acham que o céu é um condomínio fechado flutuando sobre a Judeia do primeiro século. Ficaram lá atrás, alienados, mas firmes no jogo de poder.
Fez uma pausa, e eu sabia: vinha uma de suas tiradas antológicas.
— Sabe o que é pior, meu caro Juca? É que Jesus pregou o amor, e as religiões fizeram disso um negócio. Criaram uma empresa multinacional com filiais em cada esquina, cada uma vendendo um produto diferente: salvação premium, arrependimento instantâneo, indulgência digital.
Deu uma gargalhada que se ouviu de ponta a ponta da varanda. — E não me venha dizer que isso é exagero. O Cristo curava de graça, sem formulário nem número de senha. Hoje o sujeito paga caro para ser ungido com óleo importado de Jerusalém, e ainda sai com recibo.
O Zé se levantou, deixou o café de lado, abriu uma latinha de cerveja, foi até o portão, olhou o céu e tascou: — Sabe de outra coisa, querido Juca? Nos mundos evoluídos não há religiões, porque lá ninguém precisa acreditar. Todo mundo já sabe. Aqui, a gente ainda precisa da fé para compensar a preguiça de pensar.
— Então você acha que Jesus falhou? — perguntei. Ele se virou, sério, e respondeu: — Não, não. Quem falhou foi a humanidade. Jesus foi o maior revolucionário espiritual da Terra, mas suas palavras viraram slogans de púlpito. A Boa Nova virou panfleto de seita. O Cristo universal virou mascote institucional, entendeu?
E completou, com um brilho zombeteiro nos olhos: — Jesus falava de amor e liberdade. As religiões entenderam hierarquia e controle. Ele mostrou o caminho para dentro de si. Elas construíram labirintos para fora. Ele falava com pescadores. Elas falam com banqueiros. Ele multiplicava pães. Elas multiplicam templos. Ele perdoava. Elas condenam.
Voltou a sentar, cansado de sua própria lucidez. — Olha, amigo, as religiões falharam porque deixaram de ser pontes e viraram muros. O Cristo era o vento e elas o transformaram em manual de uso.
Ficamos em silêncio. O vento mexia as folhas da mangueira como se confirmasse tudo. — E o que nos resta, Zé? — perguntei, quase num sussurro. — Resta fazer o que o Cristo realmente ensinou: amar sem crachá, pensar sem medo e servir sem plateia. È isso, caramba, é simples.
Levantou-se, ajeitou o chapéu e, antes de ir embora, disparou:
— Olha, Juca, o Cristo não fundou igreja, fundou consciência. A religião d’Ele não tem sede nem sede de poder. É a do coração desperto. Mas isso, meu irmão, ainda é heresia demais para este mundo.
Saiu devagar, rindo de si mesmo e da humanidade. E eu fiquei ali, olhando o rastro de sua ironia desaparecer na rua, imaginando Jesus, não Jesus o das catedrais, dos cárceres doutrinários, mas o do deserto, sorrindo de canto, como quem sabe que, mesmo com mais de dois mil anos de marketing religioso, a verdade ainda é simples demais para caber num dogma.












Excelente texto. Um texto simples que mostra que a humanidade ainda tem que aprender muito (humanidade dormindo).
Jesus (Sananda) ensinou a consciência crística, o amor incondicional e a física quântica.