
O nome Messias despertou nova curiosidade no debate público brasileiro, impulsionado por figuras políticas como Jorge Messias e Jair Messias Bolsonaro. No entanto, a trajetória e a carga simbólica desse nome ultrapassam em muito o cenário político contemporâneo.
De acordo com a linguista Valéria Martins, professora do Centro de Comunicação e Letras (CCL) da Universidade Presbiteriana Mackenzie (UPM), “Messias” é um dos termos mais carregados de significado na cultura ocidental.
A origem do nome: ungido e consagrado

A palavra Messias tem origem no hebraico māšîaḥ, que possui o significado literal de “ungido”.
- O termo designava alguém consagrado com óleo sagrado, um ritual que simbolizava a legitimação espiritual e divina de reis, profetas ou sacerdotes.
- A expressão foi difundida pelo latim através das traduções bíblicas e chegou ao português medieval com a grafia que conhecemos hoje.
- Devido a essa trajetória religiosa, a palavra adquiriu o peso simbólico de figura salvadora, associada à promessa de transformação profunda.
Por que “Messias” tem conotação religiosa

O sentido religioso da palavra se mantém porque o termo carrega naturalmente uma forte expectativa de mudança, de alguém capaz de “salvar o mundo” ou de guiar o povo.
Martins destaca que, embora profundamente enraizado no universo espiritual (referenciando Jesus, o messias), o vocábulo se expandiu. A palavra aparece em contextos filosóficos, literários e políticos, sempre conectada à ideia de liderança, esperança ou ruptura. Essa flexibilidade ajuda a explicar por que o nome ressurge com força em momentos de tensão social ou de grandes debates públicos.
A popularização do prenome no Brasil
A adoção de Messias como nome próprio no Brasil é antiga. Dados do IBGE mostram registros desde o século XIX, concentrados especialmente em regiões onde a religião exercia um papel central na vida comunitária.
O auge da popularidade do nome ocorreu entre as décadas de 1950 e 1970, um período marcado pela intensa adoção de nomes bíblicos no país. Após esse pico, o uso diminuiu, voltando a circular com mais intensidade apenas recentemente, devido ao impacto midiático de figuras públicas contemporâneas.
Como nomes simbólicos influenciam a percepção social
A sociolinguística e a psicolinguística demonstram que nomes próprios carregam consigo identidades e expectativas sociais que moldam a forma como uma pessoa é percebida.
- Eles ativam memórias culturais e associações coletivas, como a pesquisadora afirma: “É como se o nome criasse uma expectativa. Quem nunca ouviu: ‘Que nome forte!’?”.
- No caso específico de Messias, as expectativas podem se conectar diretamente a ideias de poder, autoridade, religiosidade ou liderança.
Essa percepção, que muitas vezes é inconsciente, afeta as interações sociais e a maneira como as figuras públicas são interpretadas em seu cotidiano.
O papel da mídia na ressignificação
A associação do nome a personagens públicos — do passado e do presente — altera e ressignifica a forma como ele é entendido pela população. Martins lembra de nomes como Adolf, que se tornou evitado, e Elvis, Pelé (Edson) e Ayrton, que tiveram explosões de popularidade devido a seus ídolos.
A cultura digital acelerou drasticamente esse movimento. Com a circulação intensa nas redes sociais, um nome pode ganhar camadas de significado metafórico, humorístico ou crítico em questão de dias (como acontece com o uso de memes e manchetes).
A linguista Valéria Martins reforça o conceito: “Os nomes próprios não são estáticos. Eles mudam conforme o momento histórico e o modo como a sociedade os utiliza.” Assim, a origem etimológica é apenas o ponto de partida de uma trajetória cultural em constante transformação.











