Criatividade em série com inteligência artificial muda a lógica da indústria

Por Edson Toffoli (*)

Atenção imediata. Chega de romantizar o improviso. A criatividade já opera como processo industrial quando entra inteligência artificial com método, medição e escala. O polo da tecnologia de hardware vive o ponto de virada. Ao tratar criatividade como engrenagem de design, engenharia e operação, a indústria transforma ideias em produtos com previsibilidade, eficiência e, paradoxalmente, mais originalidade.

Criatividade no chão de fábrica significa quatro movimentos objetivos: inovar o desenho, escolher materiais de forma ótima, reduzir defeitos em linha e personalizar sem quebrar a produtividade. A inteligência artificial entrega esses quatro movimentos com tecnologias maduras. Design generativo abre variações que um time jamais alcançaria em prazos empresariais. Simulações com gêmeos digitais antecipam decisões críticas antes de qualquer molde. Visão computacional enxerga micro defeitos invisíveis ao olho humano. Análise preditiva estabiliza processos. Quando a indústria de hardware acopla tudo isso a unidades dedicadas no silício, como NPU (Neural Processing Units), a criatividade sai do papel e entra na cadência de fábrica.

Os números mostram a virada de forma cristalina. A rede Global Lighthouse registrou salto médio de 53% em produtividade do trabalho e queda de 26% nos custos de conversão, com tempos de introdução de novos produtos reduzidos pela metade e consumo de energia menor em 26% e emissões 25% inferiores, após a adoção combinada de inteligência artificial e analytics em escala. Isso descreve criatividade com disciplina. Ideias entram no sistema e saem como resultados contábeis.

A pesquisa de manufatura inteligente de 2025 reforça o efeito operacional: executivos reportaram ganhos de 10% a 20% em produção, 7% a 20% em produtividade de colaboradores e 10% a 15% em capacidade liberada após projetos digitais com inteligência artificial no núcleo do processo. Essa métrica importa para quem fabrica computadores, smartphones, periféricos e servidores. A produção cresce sem inflar custos fixos, enquanto a criatividade flui como variável de engenharia, e não como lampejo esporádico.

Escala organizacional faz diferença. Em 2025, mais de três quartos das organizações já utilizavam inteligência artificial em pelo menos uma função de negócio, e 71% declaravam uso regular de IA generativa em ao menos uma área. O recado é direto: criatividade só vira processo industrial quando a empresa redesenha governança, dados e plataformas para aprendizagem contínua. A arquitetura, e não um caso isolado, converte inspiração em vantagem.

Casos operacionais ilustram o salto da teoria ao resultado. Uma fábrica de eletrônicos na Alemanha alcançou 69% de aumento de produtividade do trabalho, reduziu o tempo de chegada ao mercado em 40% e cortou 42% do uso de energia com a alavancagem de inteligência artificial e automação avançada ao longo da cadeia de valor. Em outra frente, uma operação de equipamentos médicos em Pequim encurtou ciclos em 66%, reduziu sucata em 66% e diminuiu reclamações de clientes em 73% graças a modelos de detecção de defeitos e aprendizado profundo na inspeção. Criatividade, aqui, aparece como arquitetura experimental com hipóteses, testes e iterações de alta frequência, amparada por modelos que sugerem alternativas viáveis de design e processo.

Como isso se traduz na manufatura de hardware. Primeiro, a prototipagem rápida com design generativo encurta o ciclo entre conceito e ferramental. Ao gerar milhares de geometrias respeitando restrições térmicas e mecânicas, a engenharia escolhe, testa virtualmente e chega ao molde com margem de acerto superior. Segundo, seleção de materiais com modelos de custos e desempenho permite equilibrar durabilidade, peso, dissipação térmica e preço. Terceiro, a personalização em massa deixa de parecer capricho de marketing e passa a funcionar como rotina de configuração paramétrica. A fábrica entrega lotes menores com variações, sem penalizar os OEE. Quarto, visão computacional com modelos próprios de cada linha cria uma malha de qualidade que atua antes, durante e depois, com feedback ao projeto.

E a mão humana. O auge surge da dupla entre especialistas e modelos. Times de produto formulam perguntas melhores, e a tecnologia amplia o espaço de busca. Engenheiros viram curadores de soluções. Designers trabalham com geradores que sugerem caminhos plausíveis, e o olhar crítico escolhe, ajusta e consolida. Cultura, portanto, precisa valorizar ciclos curtos, hipóteses explícitas e tolerância a refações rápidas. Liderança precisa patrocinar dados confiáveis, catálogos técnicos vivos e métricas que unem originalidade, viabilidade e custo.

Há um capítulo estratégico para o Brasil. A Zona Franca de Manaus sustenta faturamento anual superior a R$ 204 bilhões e mais de meio milhão de empregos diretos e indiretos, Somente na Positivo Tecnologia, empregamos em média 1.500 pessoas. Com esse lastro, o polo tem base para um programa robusto de criatividade industrial com inteligência artificial. Imagine um consórcio entre indústria, universidades e parceiros tecnológicos, com acervo compartilhado de dados de processo, biblioteca de modelos de design, padrões de visão computacional e laboratório de gêmeos digitais. O efeito multiplicador atingiria computadores, telefones, periféricos, dispositivos para casa inteligente e, sobretudo, linhas de servidores para data centers com NPU integrada para cargas de inferência em borda. Atração de investimento costuma seguir produtividade e previsibilidade. O polo já possui escala para liderar.

Faltam apenas três movimentos executivos. Primeiro, projetos de alto impacto próximos ao P&L que convertam criatividade em KPI de negócio. Segundo, plataforma comum para dados, modelos e simulações com governança, versionamento e reuso entre plantas e fornecedores. Terceiro, qualificação acelerada de engenheiros, técnicos e operadores para leitura crítica de resultados de modelos e decisões baseadas em evidências. O mercado de talentos, aliás, confirma a direção: a demanda por profissionais com habilidades em inteligência artificial cresceu 21% ao ano desde 2019. Competência digital virou insumo de fábrica, com impacto tão tangível quanto chapa, resina e wafer.

Questões éticas e riscos pedem atenção, claro. Transparência sobre limites de modelos, rastreabilidade de decisões e guarda de dados tornam-se parte do manual de qualidade. A autenticidade criativa se preserva quando a empresa explicita critérios de avaliação estética e funcional, define parâmetros de diversidade de soluções e registra o histórico de escolhas. Políticas públicas podem impulsionar a adoção ao priorizar incentivos a gêmeos digitais, laboratórios de validação, clusters de dados industriais e interoperabilidade de padrões.

O veredito é simples e exigente. Inteligência artificial converte criatividade em processo industrial quando encontra liderança com visão, dados confiáveis e obsessão por qualidade. A indústria eletroeletrônica dispõe de tecnologia, métricas e escala para tornar esse modelo dominante. Executivos que abraçam essa agenda agora entregam produtos melhores, ciclos mais curtos e margens superiores, sem perder a alma criativa. Criatividade virou vantagem operacional replicável. Quem tratá-la como sistema, e não como acaso, ocupa a dianteira por uma década.

(*) é diretor Industrial da Positivo Tecnologia

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