
A cadeia da borracha nativa amazônica, antes negligenciada, vive um processo de revitalização crucial para a conservação da floresta e o fortalecimento da sociobioeconomia. Um dos principais catalisadores desse reerguimento é o projeto “Juntos pela Amazônia – Revitalização da Cadeia Extrativista da Borracha”.
A iniciativa tem como pilares o aumento da renda dos seringueiros, a conservação ambiental e o suporte à organização política dos extrativistas.
Consolidação do coletivo e reivindicações políticas
Os avanços mais recentes são resultado de um encontro realizado em Brasília (DF), em setembro, durante a II Semana da Sociobiodiversidade. O evento reuniu parceiros estratégicos, associações produtivas e lideranças de territórios de produção, especialmente do Amazonas, Acre e Rondônia, que integram o Coletivo Borracha Nativa da Amazônia.
O Coletivo, nascido em 2023 com o objetivo de representar os interesses dos seringueiros, alcançou importantes marcos na reunião:
- Estruturação de governança: Consolidação da quarta reunião do Coletivo, com a definição de grupos temáticos e a forma de funcionamento da plenária.
- Formalização: Início do processo para a formalização do Coletivo e dos procedimentos para a adesão de novas organizações.
- Carta reivindicativa: Construção de uma carta oficial com as principais demandas do Coletivo, a ser apresentada a representantes do Governo Federal.
Natasha Mendes, analista sênior de conservação do WWF-Brasil e ponto focal da borracha, celebra as conquistas: “Foi muito importante porque conseguimos… definir os grupos temáticos e a forma como a plenária se reunirá. Também tiramos alguns encaminhamentos, como a construção de uma carta com as reivindicações do coletivo e os próximos passos para adesão de novas organizações.”
O impacto da borracha na conservação

A luta dos seringueiros pela valorização da borracha está intrinsecamente ligada à defesa da floresta. Jhanssem Siqueira, analista de sustentabilidade no Memorial Chico Mendes (MCM), parceiro do projeto, destaca o papel dos extrativistas:
“As pessoas que estão debaixo da árvore são quem fazem a conservação e a preservação dos recursos da fauna e flora. […] Esperamos que os representantes públicos leiam a carta, para que nós consigamos resgatar esse produto tão importante da sociobiodiversidade e planejar um terceiro ciclo com dignidade e respeito ao trabalho dessas pessoas.”
Marilurdes da Silva, representante da Central das Associações Agroextrativistas do Rio Manicoré (CAARIM) e ativista da cadeia há 18 anos, testemunha o novo otimismo: “Antes as pessoas cortavam a seringueira e o preço era muito baixo. Hoje, está trazendo uma expectativa de melhoria para a produção e para os seringueiros. Muitos estavam inativos e agora estão voltando [às atividades].”
Desafios e próximos passos
Apesar do cenário promissor, a cadeia extrativista ainda enfrenta obstáculos estruturais que são centrais nas reivindicações do Coletivo:
- Estrutura e Logística: Dificuldades logísticas, climáticas e a ausência de uma usina de beneficiamento da borracha no Amazonas.
- Burocracia: Entraves na emissão do Cadastro Nacional da Agricultura Familiar (CAF) e da Carteira do Produtor (CP).
- Acesso a crédito: José Roberto, presidente da Associação dos Trabalhadores Agroextrativistas do Município de Pauini (ATRAMP), aponta a dificuldade em obter financiamento de bancos públicos, essenciais para o capital de giro das pequenas Organizações da Sociedade Civil (OSC).
Para superar esses desafios, o Coletivo pleiteia a ampliação da subvenção (federal, estadual e municipal) e, principalmente, a criação de políticas específicas para as cadeias produtivas da sociobiodiversidade.
“Muito se fala na cadeia das questões socioprodutivas para a conservação ambiental, mas nos territórios ainda não chegam os benefícios disso. Precisamos de políticas efetivas que possam garantir essa cadeia produtiva, sua comercialização e geração de renda nas comunidades mais distantes”, defende José Roberto.
O foco agora é formalizar o Coletivo e finalizar a carta reivindicativa, garantindo que a “força do território e de suas reivindicações políticas” seja ouvida, conforme explica a analista do WWF-Brasil.
Sobre o projeto “Juntos pela Amazônia”

O projeto, iniciado em 2022 e coordenado pelo WWF-Brasil em parceria com o Memorial Chico Mendes (MCM), Conselho Nacional das Populações Extrativistas (CNS), Michelin, Fundação Michelin, Conexsus e associações comunitárias, tem demonstrado resultados significativos:
- Produção e renda: A safra de 2024/2025 produziu cerca de 157 toneladas, gerando R$ 2,2 milhões e beneficiando aproximadamente 600 famílias de seringueiros em municípios do Amazonas (incluindo Itacoatiara, Novo Airão, Eirunepé, Canutama, Pauini e Manicoré).
- Conservação: O trabalho, realizado em parceria com 13 associações produtoras, contribuiu para a conservação de 104 mil hectares (ha) de área protegida diretamente e quase 2,7 milhões de hectares de forma indireta, provando que a produção sustentável é um poderoso aliado da conservação florestal.
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