Desafios para revitalizar o Centro Histórico de Manaus

Projetos em andamento dão o pontapé inicial, mas especialistas apontam que a solução requer uma a série de intervenções urbanas, culturais e sociais para devolver a vitalidade à área

Por Juscelino Taketomi (*)

O Centro Histórico de Manaus é a alma da capital amazonense. Diríamos ser um palimpsesto a céu aberto onde a memória da Belle Époque, impressa na arquitetura do Teatro Amazonas, do Mercado Adolpho Lisboa e do Palácio Rio Negro, dialoga e muitas vezes entra em conflito com os desafios do presente. Nas últimas décadas, esse coração pulsante perdeu o ritmo, vítima de esvaziamento, degradação urbana e abandono, virando lixo, um espelho quebrado de sua própria grandeza.

Agora, um rol de iniciativas da prefeitura, capitaneadas pelo prefeito David Almeida, tenta reverter esse cenário. A pergunta que paira no ar úmido de Manaus é: as medidas são suficientes para embelezar e reviver de forma permanente o Centro?

A estratégia atual é multidimensional e começa com um movimento inteligente e digno de aplausos de David: a transferência de parte da administração municipal para o Edifício Iapetec, na Praça Dom Pedro II. Mais do que uma mudança de endereço, é um ato simbólico e prático. Reinsere o Centro no mapa do poder público e gera um fluxo diário de servidores, criando demanda por comércio e serviços.

Paralelamente, o programa “Nosso Centro” está atuando na recuperação do tecido urbano. O novo Mirante Lúcia Almeida é um exemplo de sucesso, um ponto de contemplação que rapidamente se tornou um local de encontros. As parcerias com o IPHAN para restaurar joias como o Museu do Porto e a Casa Vermelha também vão na direção certa, ao entender que a preservação do patrimônio é o alicerce de qualquer revitalização.

Um “monstrengo” no caminho

No entanto, especialistas em urbanismo consultados para esta análise apontam que projetos de revitalização de centros históricos mundo afora mostram que é preciso ir além da fachada. Dois problemas crônicos em Manaus são citados como centrais: o caos viário e a localização do Terminal de Ônibus do Centro, que espanca a paisagem do entorno da Catedral Metropolitana de Manaus – Nossa Senhora da Conceição.

A proposta de usar parte da área do porto como estacionamento público controlado é vista com bons olhos. É uma solução pragmática que pode aliviar imediatamente o estrangulamento das ruas estreitas, dominadas por carros estacionados irregularmente. A medida é essencial para melhorar a mobilidade e a acessibilidade.

Já o Terminal do Centro é tido como uma âncora que prende o Centro ao seu estado de degradação. É um polo gerador de desordem, com comércio informal descontrolado, aglomerações e sensação de insegurança. Sua remoção ou relocação é premente. Não se revitaliza um centro histórico mantendo um equipamento de grande impacto e que opera em contradição com essa vocação. É preciso coragem para enfrentar esse desafio.

Visão de Futuro

Para que o Centro não seja apenas um local de passagem das 9h às 17h, é preciso dar-lhe vida, vida cultural e turística. A prefeitura pode fomentar uma agenda contínua de eventos noturnos: shows ao ar livre em praças requalificadas, sessões de cinema, exposições artísticas, cafés culturais e feiras gastronômicas. Essas iniciativas, contudo, dependem de iluminação pública de qualidade e segurança ostensiva e integrada.

Outro ponto fundamental, considerando projetos bem-sucedidos como os de Medellín ou Lisboa, é o incentivo à moradia. O Centro precisa deixar de ser um dormitório vazio à noite, à mercê da marginalidade. Programas de incentivo fiscal para a conversão de sobrados em habitação para diferentes classes sociais – incluindo jovens, artistas e idosos – podem criar uma comunidade vibrante e permanente, garantindo movimento e vigilância natural 24 horas por dia.

A reorganização do Centro Histórico de Manaus é um quebra-cabeça complexo, mas que deve ser encarado. O prefeito David Almeida acerta ao colocar o tema na agenda e iniciar ações concretas. O caminho traçado é promissor, mas sua consistência e longevidade dependem de avançar em fronts mais ousados e estruturais.

A solução integrada, na nossa opinião, passa pela soma de esforços para resolver a velha questão da mobilidade, que, como já enfatizamos, implica no uso de parte da estrutura do porto para estacionamento, exige a retirada do famigerado terminal central, exige foco na agenda cultural noturna e o incentivo à moradia para criar uma comunidade permanente.

No mais, revitalizar o Centro Histórico é mais do que restaurar paredes. É reprogramar a cidade para as pessoas. É devolver a Manaus um espaço de memória e, sobretudo, transformar a cidade num lugar de futuro, orgulho e convivência cidadã. O coração de Manaus precisa voltar a bater forte.

DEIXE SEU COMENTÁRIO

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.