
Por Juscelino Taketomi
Há países que se perdem por falta de território. Outros, por falta de pão. O Brasil corre o risco de se perder por falta de vergonha e excesso de desculpas. Sentado sobre uma montanha de bens naturais, o país escolheu engalfinhar-se numa guerra de torcidas que transforma qualquer ideia em rojão e qualquer divergência em excomunhão política.
E, como se não bastasse o ruído, vivemos uma dessas ironias tropicais: temos uma Constituição que abre portas a um jogo semiparlamentarista, mas insistimos num teatro presidencialista onde o Executivo governa com o pires na mão e o Congresso, dono de um banquete de emendas, opera como síndico do condomínio Brasil — cobrando taxa extra a cada tentativa de reforma da fachada.
Não falo aqui de diferenças legítimas, mas da erosão lenta das prioridades públicas. Projetos de país viraram planilhas de repasse e visão estratégica virou moeda de troca.
O resultado é um Congresso que, salvo honrosas exceções, parece legislar em circuito fechado: o oxigênio que entra é o da conveniência, o ar limpo do interesse público raramente circula. A cada nova rodada de articulação, mais pedaços do orçamento são fatiados como tambaqui de feira, quando a banda mais graúda é reservada aos que seguram a faca.
A falta de nomes não é nostalgia gratuita, é falta de lastro moral. Onde estão os homens que, mesmo com defeitos, carregavam um sentido de grandeza? Onde estão os Tancredo Neves, que negociavam com a História em voz baixa, mas firme? Onde está o brilho teimoso de um Leonel Brizola, que preferia quebrar o próprio osso a trair suas convicções?
Onde está a inteligência cortante de um Afonso Arinos, que falava de Estado como quem fala de um patrimônio sagrado? E onde repousa a coragem de Ulysses Guimarães, que erguia a Constituição como se erguesse um estandarte de honra?
Certo que não eram santos, mas homens. Contraditórios, ambiciosos, passionais. Mas tinham escala. Sabiam que política é ponte sobre abismo, não arquibancada de estádio. Hoje, quando um nome desponta, muitas vezes se mede sua utilidade não pelo que pensa sobre a federação, a Amazônia, a educação ou a reforma tributária, mas pelo tamanho do lote que controla no balcão de negociações.
Inversão de valores
No Brasil da polarização, virtude virou suspeita, diálogo virou traição, moderação virou fraqueza. Ser razoável é ser vendido e ser radical é ser autêntico. Em consequência, alimentamos extremos que se retroalimentam, porque todo extremismo precisa do outro para justificar sua marcha.
A agenda estrutural apodrece na varanda: bioeconomia vira palavra de seminário, ciência é rodapé, educação vira um eterno “ano que vem” e a Amazônia é um palco onde cada lado sobe para dizer que ama a floresta enquanto deixa vazar fumaça por trás do cenário.
Nosso arranjo lembra aqueles barcos ribeirinhos em que três motores puxam para lados diferentes. O presidente leva pancada por tudo — até pelo que o Congresso travou. O Congresso controla o cofre, mas raramente assume o ônus do resultado coletivo.
Ministérios orbitam coalizões como satélites pagos em prestações. Responsabilidade difusa é impunidade concentrada.
Talvez sejamos, no fundo, um país que pratica um parlamentarismo orçamentário de bastidores, sem os freios, contrapesos e quedas de gabinete que dariam ao eleitor a chance de trocar o comando quando a maioria política muda.
Fica tudo meio remendado: presidente com voto popular direto e autoridade simbólica, Congresso com a chave do caixa e governabilidade à base de pozinhos de jabuti legislativo.
E agora, José ?
A pergunta que não cala: dá pra consertar? Não amanhã, mas começa com gente que não tenha medo de falar sério num tempo de memes. Começa com quem aceita perder curtidas para ganhar coerência.
Começa com quem enxerga que Amazônia não é só mapa verde, mas projeto civilizatório, que gasto público não é banquete, que Estado não é carreira de privilégio, mas plataforma de cidadania.
Precisamos de uma geração que leia Tancredo sem museu, Brizola sem caricatura, Afonso Arinos sem rodapé, Ulysses sem fixá-lo apenas no adjetivo “Senhor Diretas”. Ler para entender o tamanho do Brasil que eles tentaram segurar pelas bordas.
Porque tristeza não basta. O país é grande demais para caber nessa briga de torcida. Ou nos reencontramos como Nação ou seguiremos rico de floresta e pobre de República.











