No tempo em que o 7 de Setembro era uma festa cívica, não existiam corruptos com o calibre dos de agora

Data, agora, pertence a essa casta que fez da política um negócio lucrativo para suas vidas; a bandeira, símbolo maior brasileiro, transformou-se em uma peça de propaganda política

Preparativos para a comemoração da Independência do Brasil na capital federal - Foto: José Cruz/Agência Brasil - 01/09/2022

Por Álvaro Alves de Faria (*)

Já houve um tempo no Brasil em que o Sete de Setembro era uma festa cívica. Uma data respeitada. Isso não existe mais. Hoje o Sete de Setembro é apenas um palanque político. A pátria, ah, a pátria! A pátria passou a ser somente um pano de fundo de um enredo constrangedor. No tempo em que a data era comemorada com civismo, os personagens de hoje ainda não existiam, não faziam parte dessa imensa tristeza que parece ter tomado conta de tudo. Hoje os tempos estão mudados e o Sete de Setembro também mudou. Na verdade, em termos de civismo, não passa de somente um dia no calendário sentimental do povo brasileiro. A data, agora, pertence a essa casta que fez da política um negócio lucrativo para suas vidas. A bandeira, símbolo maior brasileiro, transformou-se em uma peça de propaganda política. Foi apropriada por partidos que dela fazem uma espécie de marca para juntar eleitores em tempos eleitorais. Esquecem que a bandeira brasileira pertence a todo povo e não apenas a alguns. Mas nem o povo sabe disso e se deixa levar por comícios cada vez mais odiosos.

No tempo em que o Sete de Setembro era uma festa cívica, não existiam corruptos com o calibre dos que existem agora. Gente que se tornou milionária roubando dos cofres públicos. Nesse tempo de celebrações patrióticas, os corruptos não andavam soltos como ocorre hoje. Muitos deles chegaram a ser presos pelo heroísmo de alguns brasileiros devotados que decidiram enfrentá-los. Mas foram soltos por uma Justiça que também não é mais justiça de coisa nenhuma. Melhor dizendo, é hoje essa Justiça que defende o ladrão corrupto, livrando-o de sua pena. E os bandidos estão aí, ocupando cargos públicos, disputando eleições como se fossem patriotas acima de qualquer suspeita. Posam de figuras impolutas e necessárias ao país. Na verdade, esses personagens sinistros que tomaram conta da política brasileira, determinam a vida da população, com suas cadeiras no Executivo, no Legislativo e no Judiciário. Estão todos acima das leis.

Lei? Que lei? As leis também deixaram de ser respeitadas porque assim quis a própria Justiça do país, com suas celebridades de togas escuras. O Sete de Setembro não era um palco de guerra. Dia cívico, a população tinha até orgulho do país. Mas o país foi praticamente afundado num pântano que não tem fim. E afunda cada vez mais. O Sete de Setembro já foi, sim, uma comemoração cívica, quando o povo mostrava sua brasilidade, não no ódio, mas no respeito e na dignidade. Respeito e dignidade são palavras que não existem mais no dicionário do Sete de Setembro. Hoje a data é apenas um palanque onde a ofensa é a palavra de quase uma população inteira envolvida nessa farsa em que tudo se transformou.

Salve, sim, o Sete de Setembro, o Dia da Independência do Brasil. Mas que seja distante de uma corja que se aproveita da data de um Brasil que desapareceu. Não há mais lugar para respeito nenhum. Hoje o Sete de Setembro é esse que aí vemos nos ruas e nas praças. Brasileiros se agredindo uns aos outros e os “grandes homens” de nossa República discursando mentiras em todas as palavras. Já houve, sim, um tempo em que o Sete de Setembro era o dia do Brasil. Esse dia foi apagado da história. O que existe agora é um grande vazio de honestidade e patriotismo. Está tudo tomado pelos grandes bandoleiros da pátria. Esses que fazem o que bem entendem em defesa de interesses próprios. O povo nada significa para indivíduos assim. E o Sete de Setembro cívico existe apenas na memória de alguns.

(*) Jornalista, poeta e escritor. Autor de mais de 80 livros, entre romances, ensaios e especialmente poesia, publicados no Brasil, em Portugal, na Espanha e na Itália. Também autor de teatro. Uma das vozes mais importantes da geração de 1960 da poesia brasileira.

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