
Nesta quarta-feira, dia 3 de junho, a história do esporte relembra o pontapé inicial de uma das trajetórias mais icônicas do futebol mundial. Há exatos 56 anos, em 1970, a seleção brasileira fazia sua estreia na Copa do Mundo do México enfrentando a Tchecoslováquia.
O clima fora de campo era pesado, marcado por críticas severas e incertezas sobre a real capacidade da equipe. No entanto, o que se sucedeu no gramado do estádio em Guadalajara transformou o ceticismo em um marco de genialidade coletiva.
A análise retrospectiva desse confronto mostra que o sucesso daquele grupo não decorreu de um alinhamento espontâneo de talentos, mas sim de uma capacidade técnica e psicológica de responder às adversidades sob forte pressão popular e política.
Bastidores tensos
A caminhada para o mundial no México enfrentou forte turbulência interna. A demissão do técnico João Saldanha e a escolha repentina de Zagallo para o comando dividiram a opinião pública e a crônica esportiva da época.
Havia um temor generalizado de que a equipe, recheada de atletas que atuavam como camisas 10 em seus respectivos clubes, sofresse com a falta de equilíbrio tático e com a lentidão em campo.
Além disso, os torcedores acompanhavam apreensivos a situação de Pelé. Aos 29 anos, o principal astro do país carregava a cobrança interna de disputar uma competição irrepreensível, buscando escapar da violência dos marcadores adversários que o haviam tirado de combate nos mundiais anteriores.
Susto inicial
A partida começou sob forte tensão, refletiva no semblante dos jogadores captados pelas transmissões de televisão (TV) para uma audiência estimada em 700 milhões de pessoas. Logo aos 12 minutos, um erro na saída de bola brasileira permitiu que o atacante Petras abrisse o placar para os europeus. Na celebração, o jogador tcheco ajoelhou-se e fez o sinal da cruz, um gesto de protesto que correu o mundo por confrontar diretamente o regime socialista e ateu vigente em seu país natal.
A resposta brasileira diante do placar adverso revelou a maturidade de suas lideranças em campo através de lances pontuais:
- O empate aconteceu aos 25 minutos com uma cobrança de falta potente de Roberto Rivellino que venceu o goleiro Viktor.
- No momento da celebração, o ponta esquerda da seleção brasileira, Roberto Rivellino, demonstrou sua liderança ao incentivar o grupo. “Vamos lá, vamos lá”, gritava o camisa 11, mostrando que a equipe não se abateria com o placar adverso.
- A genialidade de Pelé quase quebrou os recordes históricos quando o camisa 10 arriscou um chute de trás do meio de campo, percebendo o arqueiro adiantado, em uma bola que passou raspando a trave esquerda.
Festa completa
O segundo tempo evidenciou a superioridade do planejamento físico da comissão técnica nacional. Com o cansaço dos adversários sob o calor mexicano, o meia Gérson assumiu o controle do jogo. A virada consolidou-se aos 15 minutos, após um lançamento preciso do armador que Pelé dominou no peito antes de finalizar com categoria.
A vantagem desestruturou a defesa da Tchecoslováquia. Pouco depois, Jairzinho ampliou o marcador ao receber mais um passe longo de Gérson e aplicar um drible por cima do goleiro. O próprio Jairzinho fechou a goleada por 4 a 1 aos 38 minutos, superando os defensores na base da velocidade e da força física para chutar cruzado.
A goleada na estreia desfez o ambiente de desconfiança e pavimentou o caminho para a conquista do tricampeonato. Cinquenta e seis anos depois, a lembrança daquela tarde serve como testemunho de que a excelência no esporte se atinge quando a qualidade técnica individual se submete ao rigor coletivo, transformando vaias prévias em aplausos eternos.










