Nuno Vasconcellos Derrota com sabor de vitória?

Derrota com sabor de vitória?

Assim como aconteceu com o Talibã no Afeganistão, a derrota na guerra parece ser a única saída para a ditadura do Irã manter o seu poder

O presidente Donald Trump, dos Estados Unidos – Foto: Reprodução/redes sociais

Por Nuno Vasconcellos (*)

Um traço de comportamento tem, de certa forma, sido manifestado tanto pelos Estados Unidos (EUA) quanto pelo Irã em relação ao conflito que travam há cerca de dois meses. Trata-se do uso das ameaças como arma de guerra. Os dois lados usam e abusam desse recurso. Mas, por mais sérias que pareçam, essas ameaças, no entanto, nunca parecem refletir a intenção de levar o conflito a suas últimas consequências.

O presidente Donald Trump, para citar um exemplo desse comportamento pelo lado americano, chegou a afirmar, dias atrás, que daria fim à civilização persa caso a ditadura dos aiatolás não depusesse as armas imediatamente. Pois bem… O governo do Irã não se rendeu e, para o bem da humanidade, aquela civilização não foi aniquilada. Mas Trump, como é do seu estilo, segue elevando o tom e exigindo a capitulação — embora raramente aja com a força necessária para fazer cumprir aquilo que promete.

Jogo de aparências

O que isso tem de semelhante com as atitudes do Irã? Como se sabe, desde o ano passado o país vem sendo fustigado por bombardeios mais pesados e destrutivos do que parecia capaz de suportar. Isso causou danos profundos à sua capacidade de defesa e ao poderio ofensivo que sempre se esforçou para ostentar. Porém, mesmo depauperado e praticamente desarmado, o país segue fazendo ameaças.

Neste final de semana, delegações dos dois países estarão em Islamabad, capital do Paquistão, tentando, mais uma vez, colocar um ponto final na guerra. O negociador Steve Witkoff, e Jared Kushner, genro de Trump, representarão os Estados Unidos. O ministro das Relações Exteriores, Abbas Araghchi, falará em nome do Irã. Não está previsto qualquer encontro entre eles e nenhum dos lados demonstrou até agora a menor intenção de aceitar o que o outro lado exige.

O mais provável, portanto, é que a reunião termine em impasse, como aconteceu com outra tentativa, semanas atrás, e se encerre sem um resultado que leve ao fim do conflito. Os Estados Unidos impõem como condição para o fim da guerra que o Irã renuncie à violência e cancele de uma vez por todas seu controvertido programa nuclear. O Irã não aceita nem uma medida nem a outra. E exige, entre outras condições, que as Forças de Defesa de Israel (FDI), a terceira variável dessa equação, parem imediatamente de atacar os terroristas do Hezbollah acoitados no Sul do Líbano.

Poder e conveniência

A impressão que fica, no final das contas, é a de que os Estados Unidos podem, mas não querem (ou, pelo menos, não acham conveniente) transformar em realidade as ameaças de aniquilar o Irã. O país persa por sua vez, como seus líderes já declararam mil vezes desde que os aiatolás implantaram sua ditadura medieval, em 1979, jamais esconderam a intenção de aniquilar os Estados Unidos (a quem chamam de “Grande Satã”) e Israel (“Pequeno Satã”). Só que, nem nos seus momentos mais pujantes — o que está longe de ser o caso do atual — teve recursos suficientes para cumprir essas ameaças.

Mesmo assim, a ditadura insiste em aparentar uma força que não tem e continua exibindo os dentes para o mundo. Depois de ter sua indústria bélica arrasada, de ter o arsenal de mísseis, drones e foguetes praticamente esgotado pelo excesso de uso e pela incapacidade de reposição acelerada e de ter se tornado praticamente acéfala após a morte de seus principais chefes em ataques cirúrgicos dos Estados Unidos e de Israel, a ditadura iraniana continua agindo como se comandasse uma potência militar de primeira grandeza. E faz questão de simular que tem força suficiente para desafiar o maior exército do mundo — o que está longe de ser realidade.

Ação e dissuasão

Com cerca de vinte navios de sua poderosa frota de guerra fundeados no Golfo Pérsico e no Estreito de Ormuz — incluindo pelo menos um grupo de porta-aviões equipado com caças e bombardeiros de última geração —, os Estados Unidos contam com uma estrutura que não apenas sustenta suas operações como, também, atua como elemento de dissuasão frente às ações iranianas. O aparato é completado por drones de precisão e de elevado poder destrutivo. E, claro, por todo tipo de armamentos modernos, nas mãos de uma força que conta com mais de dez mil fuzileiros. Soldados de elite, eles estão sempre mobilizados e prontos para entrar em ação a qualquer momento.

Mesmo com todo esse poderio, as forças armadas dos Estados Unidos agem com cautela e parecem mais interessadas em evitar riscos do que em aproveitar as oportunidades de lançar uma operação de larga escala contra o Irã. Por que agem assim? Vários argumentos ajudam a explicar essa cautela. Um deles, em especial, pode surpreender aos que ainda se espantam com a insistência do Irã em cutucar a onça com vara curta. Um ataque fulminante por terra nas atuais circunstâncias traz o risco de gerar mais benefícios para a ditadura do que para os Estados Unidos.

Risco de invasão

Como assim? É isso mesmo? Sim, é exatamente isso: a essa altura, a esperança que resta à ditadura é continuar existindo. Para que isso aconteça, a saída mais fácil consiste em atrair as forças militares americanas para dentro de seu território, entregar o poder do país e, depois, se apresentar como vítima. E retornar ao poder assim que os exércitos americanos deixem o país. Exatamente como fizeram os extremistas do Talibã que reassumiram o poder no Afeganistão tão logo as tropas americanas foram retiradas do país, em 2021.

O roteiro é conhecido. A eventual presença física de marines no território, em confronto com apoiadores do regime pelas ruas da capital Teerã, acabaria expondo a população civil a riscos consideráveis — e geraria uma reação da opinião pública que ecoaria no coração de Washington. Uma ação mais enérgica por parte dos Estados Unidos levaria multidões de manifestantes anti-Trump a se concentrar em torno do espelho d’água, diante do Lincoln Memorial, na capital americana, “em protesto contra o uso exagerado da força contra uma população indefesa”, como sempre acontece em situações como essa. Manifestações grandiosas, por esse raciocínio, ergueriam contra as investidas americanas, uma barreira mais eficaz do que a Guarda Revolucionária seria capaz de construir.

Vitória política

É isso mesmo! Pelo que se viu até agora, e diante de sua evidente incapacidade de lançar um ataque destrutivo e de grandes proporções contra a maior potência militar do planeta, o objetivo das provocações iranianas a seus adversários, por mais estranho que isso possa soar, parece ser o de deixar o exército americano sem outro caminho a não ser o de invadir o território. Depois, restará aos líderes (ou ao que sobrou deles) se refugiar em cavernas nos Montes Zagros, a cordilheira de 1.600 quilômetros no sudoeste do país, e ficar escondidos por lá até que a opinião pública nos Estados Unidos e no mundo reaja contra “agressão” e force o fim das hostilidades.

Quem puxar pela memória notará que, desde o início desse conflito, no dia 28 de fevereiro, a ditadura dos aiatolás tem desafiado os Estados Unidos a deslocar suas tropas e prosseguir a guerra na base do “boots on the ground” — ou “botas no solo”. A postura do Irã parece ser guiada pela mesma lógica das atitudes infantis — em que os mais fraquinhos da turma desafiam os fortões para a briga protegidos pela certeza de que, se isso acontecer, os adultos sairão em seu socorro. Nesse cenário, e por mais incrível que isso possa parecer, a maior vitória que a ditadura fundamentalista pode almejar nessa guerra desigual depende justamente do fato de ser a parte fraca da disputa.

E que vitória seria essa? Trata-se, evidente da vitória política — que é a única que ele pode aspirar. Como tem acontecido na maioria dos conflitos nos quais se envolveram desde a Guerra do Vietnã, a superioridade esmagadora de suas forças armadas tem se mostrado incapaz de levar os Estados Unidos à vitória política. Isso mesmo. Em determinadas situações, a superioridade indiscutível do país mais rico do mundo tem se voltado contra ele.

Lições do Vietnã

O que derrotou os Estados Unidos no Vietnã não foi a resistência ferrenha do povo asiático — embora ela tenha existido e, em certos momentos, se mostrado heroica. A derrota foi interna, causada pela reação da oposição às ações militares. As fotografias de milhares de jovens soldados americanos que voltaram para casa mutilados ou, pior, mortos e colocados dentro de sacos de plástico preto, depois de abatidos na ofensiva do Tet, na batalha de Hué ou na tentativa desastrada da tomada de Hamburger Hill, mais do que significar perdas militares irreparáveis, resultaram em manifestações de massa que tomaram as principais cidades americanas.

E, na medida em que ganharam volume, obrigaram o então presidente Richard Nixon a assinar um acordo de cessar-fogo que, no final das contas, significou uma derrota acachapante.

Válvula de pressão

O grande desafio de Trump no atual conflito é evitar que aconteça algo parecido — e, nesse cenário, cada dia a mais numa guerra que deveria ter curtíssima duração representa um dia a menos para que o governo dos Estados Unidos consiga alterar o equilíbrio geopolítico da região mais conflagrada do planeta. O primeiro objetivo dessa guerra, desde o início, é cortar pela raiz uma ditadura que é uma fonte permanente de ameaças. E que, mesmo não tendo força para destruir os Estados Unidos, é capaz de infligir danos consideráveis por meio de atentados terroristas.

O segundo, mas não menos importante, objetivo é assumir o controle do estratégico Estreito de Ormuz — que é vital para o equilíbrio energético mundial. Mais do que o corredor marítimo por onde passa cerca de um quinto do petróleo comercializado no mundo, Ormuz é uma espécie de válvula que regula a pressão no mundo. Trata-se da única saída marítima para alguns dos principais produtores de petróleo, como a Arábia Saudita, os Emirados Árabes Unidos (EAU), o Kuwait e o próprio Irã. Interromper — ou apenas ameaçar bloquear — esse fluxo, como está acontecendo neste momento, é suficiente para provocar ondas de choque que repercutem em todos os continentes.

Ordem global

É essa importância estratégica que torna a guerra atual muito mais importante e decisiva do que a maioria dos conflitos que houve no mundo depois da Segunda Guerra Mundial. O que está em jogo neste momento não é apenas o domínio capaz de garantir a superioridade política e, por extensão, econômica sobre uma determinada extensão territorial — como nos conflitos que houve no período da Guerra Fria. Também não está em jogo o acesso a óleo e gás para consumo próprio, como muita gente acredita estar por trás do interesse americano em controlar Ormuz.

O que está em jogo, na verdade, é o redesenho da ordem geopolítica global para as próximas décadas, num movimento que afetará a China, a Rússia e toda a Europa. Mais do que um confronto militar direto, a guerra entre os Estados Unidos e o Irã tem exposto uma de dimensões globais, que inclui disputas estratégicas, energéticas, tecnológicas e nucleares. Ela envolve aspectos que se estendem muito além do Oriente Médio e terão repercussão sobre a geopolítica global nas próximas décadas.

Reflexos no futuro

Qualquer país relevante do mundo — e o Brasil certamente está incluído nessa lista — será afetado pelo resultado dessa guerra. Ou, em outras palavras, até quem se considera apenas um espectador do conflito será afetado por seus desdobramentos. Por essa razão, os Estados Unidos estão certíssimos em conduzir os conflitos com mais cuidado do que seria necessário caso seus objetivos fossem apenas militares.

A lógica americana pressupõe impor ao Irã uma derrota no campo de batalha. Mas pressupõe, também, afirmar sua superioridade como líder global. Nessas circunstâncias, os Estados Unidos não podem sequer pensar em fracassar no mesmo campo de batalha em que foi derrotado não só no Vietnã, mas também nas guerras no Iraque e no Afeganistão.

Cada soldado americano que tombar em batalha no atual conflito (e até o momento, já foram 13 vidas perdidas) significará um custo político elevado para Trump. Certamente foi por essa razão que a Casa Branca não mediu esforços para resgatar os dois tripulantes de um caça F-15E abatido no início do mês sobre o Irã — na ação mais emocionante que essa guerra gerou até agora. Caso os pilotos morressem ou fossem capturados — e, certamente, exibidos pela TV propaganda iraniana em situações vexatórias — certamente teria início uma pressão que poderia crescer a ponto de levar a guerra a um desfecho semelhante ao de outras ações que os Estados Unidos perderam não no campo de batalha — mas no terreno político.

Poder e risco

Isso significa o seguinte: a capacidade bélica sustentada pelo poderio econômico e tecnológico, somada ao processo de seleção e ao treinamento que tornam seus soldados superiores, fazem dos Estados Unidos um país imbatível do ponto de vista militar. Nenhum outro tem capacidade de derrotá-los no campo de batalha. A questão é que, dependendo do uso que for feito desses recursos, todo esse poderio corre o risco de se voltar contra o governo que comanda esse superexército.

Uma ação em território iraniano traz consigo o risco de criar embaraços políticos para o governo de Trump e de gerar aquele clima de comoção que foi interpretado como derrota em guerras anteriores. E que, em momentos extremos, forçou a recuo que, certamente, seria comemorado pelo Irã e seus apoiadores como uma vitória contra “o imperialismo ianque”. Caso isso aconteça no atual conflito, e caso o Irã continue a utilizar o estreito como argumento de chantagem mundial, pode ser gerada uma situação que tornará a economia global refém de um regime que, se não respeita o próprio povo, também não haverá de respeitar os países que dependem do petróleo que passa por Ormuz.

 (*) Empresário luso-brasileiro

Fonte: https://ultimosegundo.ig.com.br/colunas/nuno-vasconcellos/2026-04-26/derrota-com-sabor-de-vitoria-.html

 

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