
O que começa como uma simples discussão política em Berlim ganha contornos de arma de guerra em canais do YouTube e grupos de Telegram voltados ao público russo. A Alemanha, que já foi vista como a principal parceira ocidental de Moscou, vive hoje uma inversão total de papéis.
De acordo com o Centro Levada, cerca de 55% dos russos agora enxergam o país germânico como a nação mais hostil aos seus interesses. Esse índice representa um salto impressionante de 40 pontos percentuais desde maio de 2020, colocando os alemães à frente até mesmo dos Estados Unidos e do Reino Unido no ranking de rejeição.
O fator Alasca
Essa mudança drástica na percepção russa tem um componente externo decisivo. A aproximação entre Donald Trump e Vladimir Putin, consolidada no encontro histórico na Base Conjunta Elmendorf-Richardson, no Alasca, em agosto de 2025, alterou a dinâmica das “nações hostis”.
A promessa de Trump em negociar o fim do conflito na Ucrânia tirou os americanos do primeiro lugar da lista negativa pela primeira vez em 13 anos. Enquanto isso, a Alemanha, sob a gestão de Friedrich Merz, manteve uma postura rígida, tornando-se o alvo preferencial da máquina de desinformação do Kremlin.
Alvos da narrativa
A estratégia russa não é uniforme e se molda conforme o público. O professor Florian Töpfl, da Universidade de Passau e líder do projeto “RUSINFORM”, explica que o objetivo central é avançar a expansão territorial e derrubar sanções econômicas.
“A propaganda russa é orientada por interesses”, afirma o especialista.
Para os alemães de extrema-direita, a Rússia é vendida como uma guardiã de valores tradicionais e parceira econômica indispensável. Já para a diáspora russa na Europa, o discurso foca em um sentimento de perseguição e no suposto renascimento da nação contra um ocidente coletivo opressor.
Infiltrados no poder
O uso de figuras públicas para validar essas histórias é uma tática recorrente. Um caso emblemático é o de Eugen Schmidt, ex-deputado do Bundestag pelo partido AfD.
Schmidt, que já foi acusado de manter ligações com oficiais do FSB, utiliza seu alcance para pintar a Alemanha como um estado injusto e controlado.
Em seus vídeos, ele chegou a comparar propostas administrativas alemãs com a mobilização forçada de soldados, criando pânico desnecessário entre seus 80 mil seguidores. Outros nomes como Alina Lipp e Thomas Röper seguem ativos, mesmo após sanções da União Europeia (UE) aplicadas em outubro de 2024.
Guerra de algoritmos
O controle da informação passa obrigatoriamente pelas redes sociais. Em (dezembro de 2025), órgãos de inteligência identificaram oficialmente a rede “Storm-1516”, uma campanha russa que criava sites falsos imitando veículos respeitados como o Stern e o Correctiv.
Mesmo com bloqueios, a sucursal alemã da “RT DE” registrou quase 2,6 milhões de acessos em janeiro de 2025 através de sites espelhos. Por outro lado, o próprio governo russo começou a restringir o Telegram internamente para garantir que a narrativa estatal não sofra interferências, mostrando que o controle do feed é a maior arma política da atualidade.
Destaques da crise
- Alemanha lidera lista de países hostis com 55% de rejeição russa.
- Encontro Trump e Putin no Alasca em (agosto de 2025) mudou o eixo geopolítico.
- Rede de notícias falsas “Storm-1516” foi desmascarada no fim de 2025.
- Influenciadores pró-Rússia continuam operando através de domínios alternativos na Europa.
Cenário futuro
A conscientização sobre essas operações de influência aumentou, mas a propaganda se adapta com velocidade. A exploração de debates reais, como o preço da energia e a migração, serve de combustível para dividir a sociedade alemã.
O desafio atual não é apenas checar fatos, mas entender como sentimentos genuínos de insatisfação popular são sequestrados para servir a agendas estrangeiras em um mundo cada vez mais polarizado.










