
A cena cultural de Manaus ganhou um novo fôlego na última sexta-feira, 20 de março, com a reabertura oficial da programação de exposições da Casa das Artes. Localizado no centro histórico, o espaço reuniu uma mistura vibrante de veteranos e novos talentos para apresentar sete propostas artísticas e um projeto literário que desafiam o olhar convencional.
O evento não é apenas uma mostra estética, mas um termômetro das urgências sociais contemporâneas, atravessando temas como memória, território e a complexa saúde mental dos jovens amazonenses.
Vozes plurais
A exposição, que segue aberta com entrada gratuita até maio, reafirma a Casa das Artes como o principal laboratório de experimentação visual do estado. Com o apoio do Governo do Amazonas, por meio da Secretaria de estado de cultura e economia criativa (SEC), o casarão abriga obras que vão da pintura clássica a instalações tecnológicas.
Segundo o curador Cristóvão Coutinho, o foco está no diálogo com o que se entende hoje como artes visuais, permitindo que o desenho e a tecnologia ocupem o mesmo patamar de relevância artística.
Memória e ballroom
Na Sala 01, o artista Junio Gonçalves propõe o projeto “Desenhar é pertencer – Um relato visual de autoconhecimento através da arte”. A mostra é dividida em quatro atos que utilizam o desenho in loco para registrar a evolução urbana de Manaus. Já na Sala 02, o Coletivo Casa Jabutt traz a imersão “Devagar y sempre: história da Casa Jabutt”. Através de figurinos e registros audiovisuais, o grupo apresenta a cena “ballroom” de Manaus, um movimento que exalta pessoas pretas e trans.
Arte e ciência
A Sala 03 abriga uma proposta ambiciosa que conecta arte, ciência e tecnologia. O projeto “Legado Boechat – o código da vida”, de Ubirajara Boechat, com curadoria de Ângelo Boechat, divide espaço com as obras de Olivia Boechat.
O objetivo é despertar uma nova consciência ambiental sobre a Amazônia através de uma linguagem que foge do óbvio. De acordo com o curador Ângelo Boechat, a intenção é usar a tecnologia para explicar como a floresta funciona e como ela impacta a compreensão da vida.
Conflitos geracionais
Um dos pontos mais críticos da mostra está na Sala 04, com o espaço “Con.tempo.rane.idades”. Ali, quatro jovens artistas da geração Z expõem as feridas de uma época marcada por pressões sociais e ansiedade.
O artista Nico apresenta uma obra sobre a comparação social e a necessidade de se encaixar em padrões estéticos. Já o artista Alvo utiliza sua instalação para provocar desconforto no público.
“A proposta é causar incômodo, fazer com que o público reflita sobre questões que muitas vezes a gente ignora”, afirmou Alvo.
Olhar viajante
No Espaço Parede, a arte se torna crônica visual com a exposição “O Olhar do Viajante”, de Ney Metal. Em desenhos preto e branco, o artista registra o cotidiano das comunidades ribeirinhas e o urbanismo de Manaus.
Cada obra é acompanhada por um relato escrito, transformando o desenho em um documento histórico de passagens pelo interior do estado. A mostra da Casa das Artes funciona de quarta a domingo, das 15h às 20h, e se consolida como um convite necessário para entender a alma da nova arte amazonense.









