
Parece que finalmente as autoridades notaram que um prédio inaugurado em 1869 não se mantém em pé apenas com a força do pensamento e o peso da história. O imponente Colégio Amazonense Dom Pedro II, que já viu o Brasil Império virar República e sobreviveu a mais de um século e meio de descaso, agora entra oficialmente em modo de espera. Enquanto o prédio original aguarda a boa vontade dos processos de restauro, os mais de 1,2 mil alunos foram transferidos para uma sede provisória, provando que no Amazonas o patrimônio histórico é igual a vinho, mas a manutenção muitas vezes é vinagre.
O “Gymnasio”, tombado pelo Iphan desde 1988, é o novo protagonista de uma novela burocrática que já dura anos. A promessa da Secretaria de Estado de Educação (Seduc) é de que ninguém ficará sem aula, o que é o mínimo esperado, mas o tom de celebração pelo “novo prédio” soa quase como um prêmio de consolo para quem deveria estar estudando em um monumento nacional restaurado e seguro.
Centenário em obras
A mudança para o prédio provisório foi vendida como uma grande vitória logística. A secretária Arlete Mendonça garantiu que a prioridade é o calendário escolar, enquanto as “tratativas conjuntas” para o restauro caminham no ritmo da própria história do prédio, ou seja, bem devagar. É fascinante observar como um colégio de 156 anos precisa chegar ao limite para que se comece a planejar um “Termo de Compromisso” entre órgãos públicos.
“Nossa prioridade é que nenhum aluno do colégio fique sem aula” afirmou a secretária Arlete Mendonça.
O otimismo oficial ignora o fato de que o prédio histórico passou o ano de 2025 inteiro sendo “mapeado” por técnicos do Iphan, Defesa Civil e Corpo de Bombeiros. É muito mapeamento para pouca tinta e tijolo sendo colocado no lugar.
Exílio de luxo
Para acalmar os ânimos dos alunos e professores, a sede provisória foi apresentada com pompas de resort. O diretor Anselmo Neto fez questão de listar as benesses do novo endereço, que conta com salas climatizadas e móveis novos. É o clássico “Direito Penal do Cupom Fiscal” aplicado à educação: se o ar-condicionado funciona e a cozinha é nova, o fato de o prédio original estar fechado por risco estrutural vira apenas um detalhe na paisagem do Centro.
A estrutura atual conta com recursos básicos que deveriam ser a regra e não a exceção:
- Salas climatizadas: mobiliário e condicionadores de ar novos em todas as salas.
- Espaço pedagógico: laboratórios de informática e ciências integrados ao prédio.
- Arquivo vivo: o arquivo centenário da escola foi movido para o endereço temporário.
- Conforto básico: refeitório e cozinha preparados para atender a demanda dos turnos.
Papelada sem fim
O labirinto burocrático para salvar o Dom Pedro II é digno de uma tese de doutorado. Entre reuniões técnicas e termos de compromisso, a papelada viaja entre Manaus e Brasília enquanto o tempo continua sua obra de destruição no prédio da Zona Sul. O Iphan solicitou documentos em outubro de 2025, a Seduc enviou em janeiro de 2026 e agora, em fevereiro, estamos em uma nova rodada de “alinhamento técnico e jurídico”.
“Verifica-se que a Secretaria de Educação vem adotando as providências técnicas e administrativas cabíveis” ressaltou o gerente Isaac Cruz.
Essa frase é a tradução perfeita do “estamos tentando, mas o sistema é lento”. Enquanto o Deinfra e o Iphan debatem a “Reforma Simplificada”, o prédio de 1869 segue como um espectro do passado à espera de uma intervenção que não seja apenas no papel.

Almas gymnasianas
Mesmo trocando de endereço, a alma da escola teima em não morrer. Os veteranos de 2026 fizeram questão de recepcionar os “goiabinhas” (calouros da 1ª série) com o rito tradicional. É a resistência dos estudantes que mantém o colégio vivo, transformando um prédio alugado em “nosso lar”, como disse a aluna Deborah Quirino.
O perigo é que, na política amazonense, o provisório tem uma tendência crônica de virar permanente. Se a comunidade escolar não cobrar, o exílio de luxo pode se estender por mais alguns aniversários, transformando o prédio original em apenas mais uma ruína histórica no coração de Manaus.
Fique por dentro
- História: o colégio foi fundado em 1869 e é um ícone da educação no Amazonas.
- Tombamento: o Iphan protege o prédio desde 1988 através do decreto 11.304.
- Prazo: ainda não há uma data definida para o início efetivo das obras físicas.
- Alunos: mais de 1,2 mil estudantes foram transferidos para o prédio provisório.










